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Zona 30 é quase um factoide

19 de setembro de 2014

Pouco mais de dois meses depois de implantada, a Zona 30, área de velocidade controlada criada no Bairro do Recife, está muito longe de seus objetivos. Sem desconsiderar o mérito da prefeitura de ter adotado a proposta europeia de reduzir a velocidade dos veículos motorizados para permitir o compartilhamento das ruas com pedestres e ciclistas, o projeto não avançou e, atualmente, resume-se a totens ilustrativos espalhados em trechos de algumas das 22 ruas que compõem o perímetro controlado da ilha e a dois equipamentos de fiscalização eletrônica para flagrar excesso de velocidade. Nada mais. De resto, apenas a otimista aposta do poder público de que os condutores terão consciência para respeitar as placas de 30 km/h instaladas nas vias.

Por dois dias, o JC circulou pela área e constatou que muitos condutores não respeitam a sinalização, que o projeto da primeira Zona 30 da capital é mais simbólico do que prático, e que, com poucas exceções, os motoristas respeitam apenas o trecho onde há fiscalização eletrônica, pois, no caso de infração, o peso virá no bolso – multas que variam de R$ 85,13 a R$ 574,62, dependendo do percentual do excesso de velocidade. Percebeu, ainda, que a proposta funciona melhor no discurso público do que nas ações de rua. Além de não haver incremento da fiscalização eletrônica, as intervenções urbanas, características dos projetos de compartilhamento de vias, foram esquecidas.

O Bairro do Recife continua sendo estacionamento a céu aberto de automóveis, as calçadas apresentam as mesmas deficiências de antes da Zona 30 e nenhuma melhoria foi destinada à travessia de pedestres e à circulação de ciclistas. À exceção dos totens ilustrativos, das placas de velocidade e dos dois controladores de velocidade, não se percebe que o Bairro do Recife é palco da primeira Zona 30 da cidade, que tanta divulgação rendeu ao prefeito Geraldo Júlio.

A convite do JC, o engenheiro civil Stênio Cuentro, especialista em engenharia de tráfego e gestão ambiental, circulou pelo Bairro do Recife e com a ajuda do aplicativo Waze constatou que a maioria dos veículos trafega acima da velocidade permitida de 30 km/h. "De fato, os motoristas reduzem quando se aproximam do cruzamento onde sabem que há o controlador ou porque são obrigados devido às interferências naturais do trânsito, como veículos que param em local proibido, pedestres atravessando e o tempo dos semáforos", destaca o técnico.

A ausência de intervenções físicas para promover o compartilhamento das ruas também é ressaltada pelo técnico. "Nem mesmo o vão existente entre a rua e o meio-fio, criado por anos de execução errada do pavimento, foi solucionado pela prefeitura. São armadilhas criadas para quem anda de bicicleta e também para os pedestres. É um absurdo. Muitas ruas continuam sendo usadas, nos dois lados, como estacionamento, prática nada atrativa para o pedestre e o ciclista. Por tudo isso, a impressão é que a Zona 30 criada pela prefeitura é um factoide", lamenta.

A ineficiência do projeto se confirma na reação das pessoas. Reclamam da Zona 30 o motorista, o pedestre e o ciclista. Ou seja, há, de fato, algo errado. "Não percebemos muita mudança. Vemos as placas de 30 km/h, mas é comum carros passarem numa velocidade muito acima da permitida. O projeto precisa avançar bastante", criticam Diogo de Sá e Saulo Cândido, analistas de sistemas que trabalham e andam a pé no Bairro do Recife. Ou seja, pelo menos por enquanto, a Zona 30 é mais conceito, consciência, cidadania e civilidade ao volante do que fiscalização e multa. A questão é saber se os motoristas recifenses estão preparados para essa realidade.

Fonte: Jornal do Commercio

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