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Uma pequena sugestão a Eduardo Campos
3 de julho de 2009Saulo Moreira
smoreira@jc.com.br
Caro governador,
Como jornalista (diplomado, diga-se), tenho acompanhado sua trajetória desde janeiro de 1995, quando o senhor era o secretário da Fazenda do Estado. Lembro que o senhor, por atencioso e muito hábil, foi sempre querido pelos servidores do Fisco. Saiu da Fazenda para a Secretaria de Governo no ano seguinte para cumprir uma missão política dada pelo então governador Miguel Arraes. E o fez com competência.
Também ainda estão claras na minha cabeça as coberturas jornalísticas sobre aquela operação com títulos públicos da qual o senhor, tempos depois, foi inocentado de qualquer responsabilidade pelo Supremo Tribunal Federal. Antes, porém, sofreu com o bombardeio da oposição, da imprensa e de CPIs. No final daquele governo do doutor Arraes (1995-1998), ainda vieram outras pedreiras: crise financeira, má vontade do então governo Fernando Henrique com Pernambuco e, por fim, a derrota de seu grupo político nas eleições de 1998. O poder se foi, aliados se afastaram, foi-se também parte do prestígio de outrora. São os reveses da política.
Tanta dificuldade não o impediu, governador, de dar a volta por cima poucos anos depois. Todos sabemos que o senhor foi um dos ministros mais influentes do primeiro governo Lula (2003-2006) e, suprema redenção, venceu aquele grupo político que antes o derrotara. Tornou-se então o chefe do Executivo pernambucano. Para vencer as eleições de 2006, o senhor adotou um discurso moderno: transparência, gestão eficiente e interiorização do desenvolvimento.
E, já como governador, é de se admitir que sua gestão vem dando visibilidade aos atos de governo (Portal da Transparência, por exemplo), tentando modernizar a máquina pública (convênio com o Instituto de Desenvolvimento Gerencial) e atrair empresas para outros locais que não o Grande Recife (Sadia e Perdigão, por exemplo).
Nos últimos quinze dias, no entanto, comecei a ficar intrigado com a insistência de seus aliados em aprovar um projeto que garante salários fora da realidade para uma parte dos fazendários.
Sempre informado por Giovanni Sandes, incansável repórter deste JC e leitor assíduo do Diário Oficial, venho editando matérias sobre este projeto que, uma vez concretizado, criará uma casta de 352 auditores que poderão ganhar mais que os R$ 17 mil que o senhor legalmente está autorizado a receber por mês. Pequeno parêntese: a Constituição proíbe que servidores do Executivo tenham vencimentos acima do que recebe o governador.
Esta história está muito mal contada, governador. Primeiro não houve divulgação. Depois, a deputada Teresa Leitão, que assinara uma das emendas a pedido do presidente da Assembleia, Guilherme Uchoa, retirou a assinatura. Veio então seu líder de governo, Isaltino Nascimento, e bancou a autoria da emenda que garante os supersalários. Na defesa do projeto, Isaltino usou de uma ginástica argumentativa que não convenceu a ninguém. O Sindifisco, sindicato que representa os fazendários, também adota uma postura dúbia: de tarde faz média com o conjunto de servidores estaduais e critica o privilégio, à noite negocia a regalia. Todos, Teresa Leitão, Guilherme Uchoa, Isaltino e, historicamente, o Sindifisco são seus aliados. O que está havendo, governador?
Há três dias que o projeto, já aprovado pela maioria dos deputados, chegou à sua mesa. Cabe ao senhor vetar ou sancionar. Longe de mim achar que minhas palavras podem ter alguma importância, mas sugiro, governador, que o senhor vete.
Não é nem tanto pelo caráter insconstitucional da medida. Nem porque são os contribuintes pernambucanos que vão arcar com estes salários. Acho, governador, que o pior de tudo é permitir um salário acima de R$ 17 mil para um contingente formado por apenas 0,4% do funcionalismo do Estado. Professores, policiais e médicos fazem greve por melhores salários. Por que auditor pode ter salário acima de R$ 17 mil e outras categorias, não? Acaso o trabalho de um é mais importante que o de outro? Pela sua biografia e pelo próprio ideário do partido que o senhor preside (PSB), bem sei que a igualdade é uma de suas bandeiras. Portanto, para o bem do Estado, não coloque seu nome sob um projeto nocivo como este. É isso.
» Saulo Moreira é editor de economia
Fonte: Jornal do Commercio
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