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Problemas estão só no início
6 de agosto de 2013O caos de ontem no trânsito do Recife é só uma mostra do potencial de problemas sociais que podem ser gerados pelos casos de acusações contra supostas pirâmides financeiras. Os protestos que bloquearam a Avenida Mascarenhas de Moraes e pararam a Zona Sul da capital reuniram investidores da Telexfree, BBom e Priples – todas se dizem empresas de marketing multinível, mas estão suspensas pela Justiça por suspeita de serem pirâmides. A Avenida Paulista, em São Paulo, também recebeu protestos. O movimento ganhou ainda as ruas de Natal. Além das três empresas, há pelo menos outras 30 investigadas e as autoridades alertam: o trabalho de uma força-tarefa do Ministério Público e da polícia em todo o País deve elevar o número de ações e paralisações.
O estopim dos protestos de ontem no Recife foram as prisões do empresário Henrique Maciel Carmo Lima, 26 anos, e de sua esposa e sócia, Mirele Pacheco de Freitas, 22, ambos da pernambucana Priples, suspensa por determinação da Justiça estadual. A empresa seria do ramo de marketing digital. Segundo o delegado Carlos Couto, da Polícia Civil, entretanto, dos R$ 107 milhões movimentados pela Priples em quatro meses desde o início do negócio, em abril, 95% vieram de novas adesões. Ou seja, segundo ele, 210 mil investidores colocaram dinheiro em uma empresa que não vendia nada.
Além da Priples, há acusações semelhantes contra a Telexfree, suspensa pela Justiça do Acre após alcançar quase 1 milhão de pessoas, a BBom, paralisada em Goiás após superar os 100 mil cadastros, e a Blackdever, parada em Minas Gerais depois de atrair 50 mil pessoas.
No total, são 33 investigadas – todas alvo de alertas de órgãos como Ministério Público, polícias, Ministério da Fazenda, Ministério da Justiça e procons -, não só pela suspeita de crimes contra a economia popular (pirâmides), mas principalmente pelo alto risco financeiro para os investidores.
O aposentado Marcelo Santos é um dos que temem não ter de volta o dinheiro aplicado na Priples. Ele investiu R$ 2 mil na promessa de retorno de 60% ao mês e começaria a receber a partir do próximo sábado. Ontem se deparou com a Central de Atendimento, em Piedade, fechada. Pedro Henrique Santos conta outra história. Um dos mais exaltados no protesto do Recife, ele largou a profissão de bancário um mês após virar "divulgador" da Telexfree, como a empresa chama quem adere ao negócio. Isso foi há sete meses. Ele está há dois meses sem receber desde que a Justiça do Acre suspendeu pagamentos e novas adesões à empresa. "Tirei o que eu investi e mais um pouco. Agora tem muita gente que está desesperada. Em depressão, pensando em suicídio", conta Pedro.
Empresa é suspeita de usar "laranjas"
Há uma série de suspeitas contra a Priples sob investigação da Polícia Civil. A empresa também será investigada nos próximos 30 dias pelo Ministério Público Federal no Estado, a pedido do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). A empresa movimentou R$ 107 milhões em quatro meses e havia R$ 72 milhões em sua conta quando o bloqueio do dinheiro foi pedido à Justiça. Há indícios de que parte do patrimônio da Priples está em nome de "laranjas", para ocultar os bens. A polícia ainda estuda responsabilizar investidores no topo da rede da Priples, que lucraram até R$ 600 mil, por atrair vítimas para o crime de economia popular supostamente praticado pela empresa.
A Priples tem 210 mil investidores em todo o País, concentrados principalmente no Nordeste, em Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.
O delegado Carlos Couto, à frente das investigações, conta que já oficiou a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Detran e cartórios de registro de imóveis para informarem sobre bens em nome da empresa e do casal à frente da Priples, o empresário Henrique Maciel Carmo Lima e sua esposa Mirele Pacheco de Freitas. "Temos notícia de que muito dos bens não estão no nome deles", diz o delegado Guilherme Mesquita, também nas investigações.
Seis medidas foram solicitadas à Justiça pela polícia: quebra de sigilo de dados da empresa, para conhecer o cadastro dos investidores, quebra do sigilo bancário, indisponibilidade do patrimônio e das contas bancárias da empresa e dos sócios, arresto e sequestro de todos os bens, seis mandados de busca e apreensão, e os pedidos de prisão preventiva efetuados no último sábado.
O sistema da Priples só permitia que um mesmo CPF tivesse um investimento de R$ 100 a R$ 10 mil. Mas a dupla de delegados relata que houve casos de gente que colocou na empresa até R$ 60 mil. Para isso, essas pessoas usariam CPFs até de crianças e adolescentes, algo ainda sob investigação. Da mesma forma, os dois dizem haver possibilidade de formalização de acusações contra quem estava no topo da pirâmide, as pessoas mais beneficiadas no esquema fora os donos da empresa.
"Não temos ainda informações no caso da Priples, mas em pirâmides, historicamente, entre 70% e 80% dos investidores não conseguem recuperar o dinheiro", explica Carlos Couto.
A empresa ontem cumpriu a ordem judicial de suspensão de seu site e sistema de pagamentos até o julgamento final da ação, sob ameaça de multa de até R$ 1 milhão.
Até o fechamento desta edição, a reportagem tentou localizar os advogados da Priples e do casal Henrique e Mirele, mas não conseguiu contato.
Fonte: Jornal do Commercio
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