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Portas cerradas e uma cidade fantasma

16 de maio de 2014

Os recifenses saíram de casa, ontem, em clima de tensão e expectativa de como seria o dia com os policiais e bombeiros militares em greve. Entre notícias (e muitos boatos) de saques, arrastões e assaltos, foi sendo formado um cenário de caos, a partir do meio dia. Bancos e comércio em geral fecharam as portas. Escolas e faculdades suspenderam as aulas. Shoppings e órgãos públicos encerraram o expediente mais cedo. Pessoas andavam apressadas e se aglomeravam nos pontos de ônibus tentando voltar para casa. Importantes avenidas, como a Conde da Boa Vista, no Centro, ficaram inacreditavelmente vazias. A sensação, ao final da tarde, é de que se caminhava por uma cidade fantasma. E sitiada. Pouco antes das 20h veio a notícia mais esperada: a greve acabou.

O clima de medo alastrado durante o dia foi reforçado com uma onda de boatos. Mas as ocorrências não eram poucas. Os saques, em geral, foram registradas nas periferias, onde supermercados e lojas de eletrodomésticos eram os mais visados. No Centro, alguns assaltos, arrastões e correria. "Estão roubando todo mundo no ônibus", gritava uma mulher correndo pela Avenida Cruz Cabugá, em Santo Amaro. Cinco homens acabaram presos em flagrante por equipes do Exército que devolveram os pertences às vítimas.

Quem encarou ir ao Centro se frustrou. Ruas como a Soledade, Hospício, Imperatriz, Aragão e Gervásio Pires estavam vazias. Nesta última, um restaurante e uma lanchonete ainda se arriscaram a funcionar até à tarde. "Mas foi prejuízo total, as pessoas só passavam correndo, nunca vi algo assim em nove anos", lamentou a comerciante Maria do Carmo Bezerra, que fechou o estabelecimento por volta das 16h.

Os supermercados funcionaram até as 15h, 16h, com apenas uma porta semiaberta e presença de segurança na entrada. O cenário deserto era o mesmo em Boa Viagem, na Zona Sul, e em Casa Forte, na Norte. Num hipermercado local, duas lojas foram assaltadas por motoqueiros. Na Avenida Agamenon Magalhães, em Santo Amaro, área Central, um grupo bloqueou a via queimando pedaços de madeira, para assaltar os motoristas.

Escolas e faculdades suspenderam as aulas da tarde e noite. As estações de aluguel de bicicleta do BikePE foram esvaziadas. Alguns motoristas de ônibus abandonaram o serviço com medo de perder o apurado e foram substituídos por reservas. Em Jaboatão, estações do metrô chegaram a funcionar fechando as portas sempre que grupos se aproximavam.

À noite, uma hora depois do anúncio do fim da greve, o Jornal do Commercio fez um pequeno giro pelo Centro e não encontrou nenhum policiamento. Apenas no quartel do Comando da Polícia Militar, no Derby, onde dez viaturas saíram para rondas com alunos do curso de sargento. "Era uma ação já programada e foi mantida", informou o capitão Hélio Santos. Alguns alunos reclamaram da falta de coletes. "Querem que trabalhemos mas não nos dão condições", disse um deles. Os militares informaram que os grevistas estavam aquartelados e só hoje voltariam ao trabalho, após receber escala.

Pelas ruas, poucos carros, ônibus vazios e algumas pessoas nas paradas ou conversando na porta de casa, como o aposentado Luiz Carlos dos Santos, na Conde da Boa Vista. "Por aqui ainda não vi polícia, só maloqueiro cheirando cola e tentando assaltar. Mas tô achando bom o silêncio", declarou, no momento em que um jovem passava correndo atrás de outro, com um pedaço de madeira na mão e uma cola pendurada no nariz. Lá perto, na Rua do Hospício, dois grupos faziam arruaça e avisavam: "Passa direto!". Na Rua das Ninfas, dois rapazes tentavam arrombar um quiosque. Para os que já frequentam a área diariamente, o clima era normal para a área à noite, apenas um pouco mais inseguro.

Fonte: Jornal do Commercio

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