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O dinheiro público escorreu pelo ralo

11 de agosto de 2013
Um homem foi condenado a ter o fígado comido todos os dias por uma águia, sem trégua, tic, tac. O órgão dele crescia à noite mas voltava a ser digerido. A imagem de repetição e sofrimento, contudo, não existe apenas na mitologia grega, onde o titã Prometeu foi obrigado a passar pelo martírio eterno após roubar o fogo de Zeus e entregá-lo aos mortais. Todos os dias, a sociedade tem o fígado degustado, ficando refém dos transtornos por conta de obras mal planejadas que logo precisam ser refeitas. O estado e o Recife estão cheias delas. De 2000 até este ano – em menos de duas décadas – é possível citar pelo menos seis que passam por constante mudanças. 
 
Cada governo aponta uma solução para resolver problemas que afetam o cidadão, mas que logo mostra vida útil curta. O resultado do “quebra e refaz” impacta na qualidade de vida das pessoas e nos cofres públicos com o desperdício de recursos. Do início desta década até hoje, a Prefeitura do Recife, e os governos do estado e federal gastaram aproximadamente R$ 118 milhões em obras visitadas pelo Diario e que precisaram ou serão alteradas. O valor daria, por exemplo, para construir quase dois mil apartamentos de conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda, como aquelas que moram nos Coelhos, no centro do Recife, e foram atingidas por um incêndio na última semana.
 
O exemplo mais recente é o Terminal Integrado Pelópidas Silveira, o maior equipamento de embarque e desembarque de passageiros de ônibus de Pernambuco, em Paulista. O local foi reformado em 2009 pelo governo Eduardo Campos (PSB), no valor de R$ 8,3 milhões (corrigidos pelo IGP-M), sob a promessa de melhorar o transporte coletivo. Mas vai passar por novas reformas em breve. Ele está praticamente no meio do Corredor Norte/Sul, que vem de Igarassu até o Recife, receberá o BRT (Transporte Rápido por Ônibus) e, mais uma vez, exigirá paciência do usuário durante as obras. 
 
O caso mais emblemático de desperdício de tempo e dinheiro é a Avenida Conde da Boa Vista, reinaugurada em março de 2008 pelo então prefeito João Paulo (PT). A obra, incluindo a Praça do Derby, custou R$ 20 milhões (em valores corrigidos), porém precisa ser remodelada. A urgência das obras é um ponto em comum na avaliação de técnicos, moradores e lideranças políticas, mas as alterações prometem causar novas dores de cabeça aos recifenses. 
 
Os exemplos mostram que o dinheiro público continua sendo o fígado de “Prometeu”. A Avenida Dantas Barreto, para se ter uma ideia, é vista como um dos maiores equívocos de planejamento urbano. De acordo com o mestre em engenharia Maurício Pina, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Católica, ela foi inaugurada sob os escombros do Bairro de São José, em setembro de 1973. “A avenida liga nada a coisa nenhuma, destruiu a vida do centro da cidade, casarões antigos e uma Igreja para virar um estacionamento de carros e o camelódromo”.
 
Ainda segundo Maurício Pina, é difícil para os técnicos apontarem uma obra com visão de futuro e planejamento. Segundo ele, o Sistema Estrutural Integrado de Transportes, planejado em 1984, pode ser visto como algo grandioso. Contudo, ele ressalta que nunca foi concluído, quase 30 anos depois. “Em 30 anos, nenhum estudioso discordou do SEI. Os novos corredores, inclusive, fazem parte do sistema e darão uma nova feição à mobilidade, mas ainda precisa muito (para chegar ao auge)”, afirmou, confirmando indiretamente que a mitologia sempre tem um fundo de verdade. (Continua na página A8)
 
Saiba mais
O que daria para fazer com esse dinheiro?
R$ 118,1 milhões foram os valores gastos nessas obras que serão refeitas
65 Upinhas, por exemplo, poderiam ser feitas com esses recursos
1.913 apartamentos de conjuntos habitacionais poderiam ser feitos com esses recursos
98 academias da cidade no valor de R$1,2 milhão cada poderiam ser feitas com esses recursos 

Fonte: Diario de Pernambuco

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