Não se passou sequer um ano que um blecaute deixou a madrugada dos nordestinos mais escura e, ontem, o meio da tarde foi de completa falta de energia na Região. Foi a primeira grande queda de energia de 2013 e teve origem no Piauí, complicando a vida de 16 milhões de pessoas. Culpa de queimadas que afetaram duas linhas de transmissão que pertencem à iniciativa privada e que cortam aquele Estado. Por volta das 15h10, no Recife, os semáforos desligaram e o trânsito parou. Pacientes do Hospital da Restauração levaram um susto com a falha de um dos geradores. O Metrô deixou de funcionar e 175 mil recifenses ficaram sem ter como voltar para suas casas. Operadoras de telefonia entraram em colapso: nenhuma ligação era concluída. As redes sociais foram inundadas de fotos e comentários. O comércio liberou os funcionários mais cedo e as lojas cerraram as portas antes do sol se pôr. A normalidade só foi restabelecida nas capitais nordestinas às 17h30.
Nem a sede da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), no bairro do Bongi, escapou do apagão. O portal da empresa também ficou fora do ar. A causa do blecaute só veio à tona oficialmente no começo da noite. De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), duas linhas de transmissão, uma da empresa IENNE e outra da Taesa, foram afetadas por queimadas e provocaram, em seguida, o desligamento em cadeia de outras três linhas. Ainda no meio da tarde, uma fonte da Chesf informou que o problema foi originado em uma área pertencente às Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte). Procurada, a estatal responsável pelas operações de fornecimento de energia para o Norte do País (mais o Maranhão e o Tocantins) rebateu ter sido em seus equipamentos a origem do blecaute, informação que acabou sendo confirmada posteriormente pela ONS.
O fato de ter atingido apenas Estados do Nordeste não é a única semelhança com o blecaute ocorrido no final de outubro do ano passado. A empresa Taesa, mais uma vez, foi protagonista no problema. O grupo tem participação acionária da mineira Cemig – que é comandada pelo governo de Minas Gerais e possui ainda outros 114 mil acionistas em 44 países diferentes. Em 2012, um curto-circuito ocorrido às 23h14 em uma das oito linhas de transmissão da subestação de Colinas (TO) pertencentes à Taesa desencadeou um apagão que atrapalhou a vida dos nordestinos. Na época, assessores da Presidência da República tentaram politizar a situação, ligando o blecaute ao governo mineiro, que está nas mãos do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), principal partido de oposição à administração federal.
A Estação Elevatória de Pirapama, localizada no Cabo de Santo Agostinho, que possui seis grandes conjuntos de bombas, voltou a funcionar quando a energia foi restabelecida, porém, logo depois, apresentou problemas e parou novamente. Até o fechamento desta edição não foram registrados casos de falta de água e as equipes da Companhia Pernambucana de Abastecimento (Compesa) e da Companhia Energética de Pernambuco (Celpe) estavam trabalhando no local. Possíveis reflexos só viriam a acontecer depois da 0h, informou a assessoria de imprensa da Compesa.
Somente hoje pela manhã será possível dimensionar os problemas provocados pela falha. O Sistema Pirapama atende cerca de 3 milhões de consumidores do Cabo, Jaboatão dos Guararapes, São Lourenço da Mata, Camaragibe e Recife.
Para quem perdeu produtos ou equipamentos em virtude do apagão, a Associação de Defesa do Consumidor Proteste recomenda procurar rapidamente a concessionária de energia – no caso do Estado, a Celpe. Ontem, a empresa emitiu comunicado oficial reforçando que todos os municípios do Estado foram atingidos. "O consumidor deve lembrar de anotar o protocolo, o nome do atendente, a hora e o dia da ligação", diz Sonia Amaro, advogada da instituição. Ela afirma que o consumidor deverá, posteriormente, elaborar um orçamento do conserto do equipamento para ser entregue à Celpe. "A concessionária tem o dever de orientar o cidadão nesse processo, de dar mais detalhes", diz a especialista. Caso a concessionária não se responsabilize, o consumidor deve procurar o Procon-PE para pleitear o conserto ou um novo produto. "Mesmo que a culpada não seja a Celpe, é com ela que se dá a relação de consumo. Ela é a responsável", diz o coordenador do Procon-PE, José Rangel. Em último caso, o cidadão pode acionar a Justiça.
… e a população paga o preço
As 29 estações do metrô no Recife fecharam ontem por conta do apagão no Nordeste. Abastecidas por sete subestações da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), as unidades tiveram o fornecimento de energia elétrica interrompido. Os geradores existentes são suficientes apenas para manter a luz interna das estações, mas não têm capacidade de fazer os trens operarem.
O que se viu foi muita gente amontoada na porta das estações à espera de alguma notícia, sem saber quando seria possível retornar para casa. O serviço só voltou à normalidade por volta das 18h50.
Sem luz, a Superintendência de Trens Urbanos do Recife (CBTU) devolveu os valores das passagens aos usuários que estavam nas estações, orientou sobre a utilização do transporte rodoviário e fechou as unidades. Pelo menos 175 mil usuários ficaram sem poder voltar para casa nos trens. Os torcedores do clássico Náutico e Sport, que usariam a linha Recife-Camaragibe para desembarcar na Arena Pernambuco, também ficaram na mão.
O metrô seria o principal modal de transporte para chegar ao estádio. Ontem, a discussão era se torcedores poderiam utilizar o trem na volta da partida de futebol, por conta do horário de encerramento da operação (diariamente, às 23h), uma vez que o jogo se encerraria por volta da 0h. A CBTU decidiu não estender o horário por causa do clássico. Os torcedores, portanto, tiveram dificuldade tanto para ir quanto para voltar da partida.
A diretoria da Superintendência de Trens Urbanos do Recife explicou que, caso metade das subestações tivessem sido desligadas, ainda seria possível manter o metrô funcionando por até oito horas. Mas, com o fornecimento de energia completamente cortado, foi impossível manter as operações.
O metrô do Recife recebe uma média de 350 mil usuários por dia, utilizando as três linhas oferecidas pelo sistema (Recife-Camaragibe, Recife-Jaboatão dos Guararapes e Recife-Cajueiro Seco).
Por causa do metrô fechado, muita gente precisou usar os ônibus, deixando as paradas ainda mais congestionadas. Muitos usuários precisaram se amontoar para conseguir entrar nos coletivos. À medida que as pessoas iam sendo liberadas do trabalho, as filas para conseguir entrar nos veículos iam aumentando, as calçadas ficaram lotadas. A fotografia de dentro dos ônibus era a mesma: aperto, revolta e impaciência.
O trânsito travou nas principais avenidas do Grande Recife. Na Agamenon Magalhães, uma das principais vias da capital, motoristas tiveram que ter paciência. O trânsito praticamente não fluía no sentido Olinda-Recife.
Dentro dos carros, gente que precisava chegar ao aeroporto, ir ao médico ou estava preocupado se chegaria a tempo do clássico na Arena Pernambuco. Caminhoneiros também estavam tensos, com receio de terem que arcar com o prejuízo dos atrasos nas entregas.
Outros pontos de retenção na tarde de ontem foram Av. Boa Viagem, Av. Norte, Av. Mascarenhas de Morais, Av. Recife, Av. Rui Barbosa, Rua da Aurora e imediações.
Para tentar amenizar o caos, a Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) colocou nas ruas seus 100 agentes de trânsito, em pontos estratégicos e nos principais cruzamentos. Por causa dos no breaks, instalados recentemente e que permitem alimentação do sistema ainda que haja queda da energia, 300 dos 649 semáforos do Recife continuaram funcionando normalmente.
ARRASTÕES
Em bairros da Região Metropolitana do Recife, moradores relataram situações de violência. Em Jardim Paulista, em Paulista, a praça central foi invadida por adolescentes que roubavam quem passava pelo local.
Um homem que preferiu não se identificar contou que os jovens estavam armados e levavam principalmente celulares de trabalhadores e estudantes que voltavam para casa.
Fonte: Jornal do Commercio