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Movimento não é de esquerda ou de direita

19 de junho de 2013
No sexto dia das manifestações de rua que surpreenderam o Brasil, começa a se formar um consenso sobre o que é o movimento, o que representa, que futuro terá e qual a influência exercida pelas redes sociais na sua organização. Alguns dos principais especialistas do país em história, sociologia e mídias sociais, ouvidos por telefone pelo Diario de Pernambuco, concordam que o movimento não é de esquerda nem de direita, e não está direcionado exclusivamente contra governo ou oposição. 
 
“Este movimento não tem nada a ver com ideologia no sentido clássico. Seus integrantes não são politizados ideologicamente”, afirma o sociólogo Bernardo Sorj Iudcovsky, professor da UFRJ e autor de 26 livros, entre os quais Meios de comunicação e democracia: além do Estado e do mercado. 
 
“São pessoas, jovens principalmente, que estão expressando sua insatisfação com a política tradicional e com uma série de coisas que acontecem no Brasil. O que temos aí é a expressão de um grande mal estar social”. Para Bernardo, também não se sustenta a ideia de que eles sejam de uma única classe social: “Veja a multidão que participa dos protestos. No Rio tinha mais de 100 mil pessoas. Você acha que são de uma classe só?”.
 
Para os especialistas, está claro também que os manifestantes não se sentem representados pelos partidos nem pelos políticos em geral – daí os protestos feitos diante de prédios como o Congresso Nacional em Brasília e a Assembleia Legislativa do Rio. “É como se eles quisessem dizer: ‘Vocês não nos representam’”, afirma Francisco Carlos Teixeira (UFRJ), especialista em história social do Brasil, com pós-doutorado na Alemanha. Destaca-se aí a preocupação dos líderes do movimento e de muitos dos participantes de se afirmarem apartidários. 
 
A professora do Instituto Internacional de Ciências Sociais (SP), Ana Bambrilla, um dos principais nomes da pesquisa em mídias sociais no país, acredita que os protestos não serão cooptados pelos partidos. “O partidarismo foi tão repudiado pelos manifestantes quanto o vandalismo. 
 
Bastava alguém erguer a bandeira de um partido e logo o povo começava a gritar “Baixa a bandeira!”, “Sem partido!” Eu mesma vi e gritei isso”, conta ela, que estava na manifestação de São Paulo segunda-feira.
 
As manifestações puseram em destaque também o poder de mobilização das redes sociais. “O poder que essas pessoas têm de colocar fotografias de cachorrinho é igual ao poder que têm para trocar palavras de ordem e montar um bordão específico de luta. E na rua a mobilização ganha amplitude”, afirma um dos pioneiros da internet no Brasil, Demi Getschko, diretor-presidente do Nic.Br (Núcleo de Informação e coordenação do Ponto BR). A comunicação pela internet foi fundamental para a dimensão do movimento, entende ele: “A população agora tem uma possibilidade de manifestação que não tinha. Isso só foi possível por causa da internet. De nenhuma outra forma Manaus, Curitiba e outras cidades se juntariam para protestar com uma bandeira comum. Isso é algo que veio com as redes sociais”.
 
 
"Ninguém aguenta mais ficar calado"
E no futuro, aonde irá desaguar este movimento? Em outros países onde aconteceu fenômeno semelhante (como Espanha e Inglaterra), ele se esvaziou ou perdeu força. Para o professor Bernardo Sorj, é possível que o movimento se esvazie também no Brasil, que não resista ao fim das férias escolares ou se fragmente em grupos sem poder de pressão. “Mas o relevante não é isso, o relevante é que essas manifestações marcam uma inflexão na história do Brasil, no sentido de que acabou o período de apatia da população”, disse. 
 
Bernardo reconhece que a internet e os celulares são “instrumentos eficazes” para a mobilização, mas atenua o poder deles. “Na Revolução Francesa, no maio de 68 na França, no movimento Fora Collor, não tinha internet e o povo estava lá. Internet e celular não produzem nada. O que produz são os corações e mentes”, afirma. 
 
Como lidar com a situação pós-manifestações é algo que não está claro nem para os especialistas. “Não sabemos lidar com isso. Eu mesmo não sei como lidar com isso”, reconhece Demi Getschko. Já a professora Ana Bambrilla, autora dos e-books Para entender as mídias sociais (volumes I e II), acha ser provável que a partir das manifestações atuais outras aconteçam no futuro, com temas pontuais. “Demos exemplo. Mostramos que é possível. As redes sociais e o poder de fala que elas conferiram às massas despertaram essa consciência, que finalmente chega às ruas”, diz ela. “Se isso for direcionado para o bem, os efeitos podem ser engrandecedores à sociedade. Ninguém aguenta mais ficar calado, passivo, na frente de uma TV”. 

Fonte: Diario de Pernambuco

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