Visto do alto, o concreto já delimita a paisagem. Em meio ao manguezal, no bairro do Pina, começa a ganhar contorno mais uma etapa da Via Mangue, o corredor expresso que fará a ligação do Centro do Recife à Zona Sul da cidade. Uma alteração no projeto evitou que o mangue fosse aterrado e a via elevada, como está sendo chamado esse trecho de quase dois quilômetros de extensão, vem sendo erguida com uma técnica inédita no Estado que reduziu o impacto ambiental da construção. Com o uso de um equipamento conhecido como cantitravel, estão sendo fincadas pilastras dentro do mangue, que servirão de sustentação para as placas de concreto que formam a via. A técnica, muito usada em obras portuárias, permite que os pilares sejam cravados sem a necessidade de fundações e de contato com o solo. De acordo com a Prefeitura do Recife, a mudança, definida no início deste ano, evitou que uma área de manguezal correspondente a 52 mil metros quadrados fosse aterrada. Para a fixação das estacas, serão retirados cerca de 300 metros quadrados de mangue.
É a primeira vez que o cantitravel é utilizado em uma obra em Pernambuco. "A inovação é ainda maior, se considerarmos que essa é a primeira construção do País a utilizar o equipamento para fazer um traçado com curvas. Todas as obras usando esta técnica até agora foram para construir vias em linha reta", ressalta o secretário de Infraestrutura e Serviços Urbanos do Recife, Nilton Mota. A Promotoria de Meio Ambiente do Ministério Público de Pernambuco considerou um avanço a alteração do projeto e disse que a redução do impacto ambiental foi fruto de longas discussões travadas em torno da obra. "Grande parte do manguezal que seria aterrado foi poupado. Isso se deve também à participação da própria comunidade, que sofreria diretamente com a retirada da vegetação", afirmou o promotor de Meio Ambiente da Capital, Geraldo Margela.
A via elevada tem início na área onde antes funcionava o Aeroclube de Pernambuco, no Pina, e termina nas imediações das Ruas Tenente João Cícero e Dona Maria Carolina, em Boa Viagem. Para a construção, serão fincadas no mangue 1.482 estacas. Já foram instalados cerca de 900 metros de extensão de estacas, sendo que, desse total, 600 metros foram cobertos com placas de concreto. A via ficará numa altura de, no mínimo, 60 centímetros acima do nível da água. De acordo com a construtora Queiroz Galvão, empresa responsável pelas atuais etapas de execução da Via Mangue, 50% da via elevada está pronto.
Na última quarta-feira, a reportagem visitou as quatro principais frentes de trabalho do corredor viário. Além do trecho aberto no manguezal, estão sendo executadas, no Pina, as obras da ponte estaiada e as duas pontes sobre a Lagoa Encanta Moça. Já em Boa Viagem, a Via Mangue ganha forma com o complexo de quatro viadutos construídos no entorno da Rua Antônio Falcão. Das quatro etapas, essa é a mais avançada, com 83% da obra executada. "Esse trecho deverá ficar pronto em fevereiro do próximo ano. Mas o prazo final para liberação de todo o corredor viário permanece sendo abril de 2014", explicou o gerente de contrato da Queiroz Galvão, Francisco de Assis da Fonseca Neto.
No momento, o trecho mais complexo da Via Mangue é a construção da ponte estaiada. Segundo a prefeitura, será a etapa que deverá demorar mais tempo para ser concluída, só ficando pronta no prazo-limite para entrega de todo o corredor. Todas as fundações estão prontas. Agora estão sendo executadas as vigas e o tabuleiro, estruturas que vão dar sustentação aos quatro mastros, com altura de 68,5 metros, que compõem a ponte. A obra fará a ligação entre a Avenida República do Líbano, no Pina, e a Rua Saturnino de Brito, no bairro da Cabanga. Houve uma alteração no projeto e a ponte estaiada ganhará uma terceira faixa que dará acesso ao RioMar Shopping. As atuais etapas da Via Mangue começaram em abril de 2011. De acordo com a prefeitura, 62% da obra já foi executada. Orçado inicialmente em R$ 319 milhões, o custo atual do projeto é de R$ 383,45 milhões.
Fonte: Jornal do Commercio