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Juro baixo não chega ao bolso
17 de setembro de 2006
A taxa de juros básica da economia – a Selic – está num dos patamares mais baixos da história e a perspectiva do próprio Comitê de Política Monetária (Copom) é fazer novos cortes até o final do ano. Atualmente em 14,25%, a Selic poderá chegar a 13,75% ao ano. A queda contínua representa estímulo ao investimento produtivo, gerando mais emprego e renda. Na outra ponta, a redução da Selic também mexe com os empréstimos ao consumidor. Até o momento, porém, esses reflexos ainda são tímidos. A Selic ainda está alta, no comparativo com outros países, e os bancos não repassaram esses cortes integralmente ao tomador de empréstimo. Mas as apostas são otimistas para o futuro.
“Como os juros no Brasil ainda são elevados, o impacto na economia é marginal”, considera Zeina Latif, economista-chefe do Banco Real. “O problema do Brasil é que os juros são altíssimos, incompatíveis com qualquer outra economia”, critica Jorge Côrte Real, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe).
Além disso, os bancos não estão repassando para o tomador de crédito, seja empresa ou consumidor, toda a redução sofrida pela Selic. De acordo com estudo divulgado quinta-feira passada pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), a taxa média de juros para pessoa física caiu 2,66 pontos percentuais entre setembro de 2005 e agosto de 2006, quando passou de 140,31% para 137,65%. No mesmo período, a Selic foi reduzida em 5,50 pontos percentuais.
Edson Carminatti, analista financeiro do Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inepad), explica que a taxa ao consumidor não está caindo nas mesmas proporções da Selic porque os bancos estão mantendo o spread nas alturas. O spread é a margem bruta dos bancos, a diferença entre a captação de recursos da instituição financeira e o que é repassado ao consumidor. A Selic baliza todo o mercado financeiro porque os títulos públicos estão atrelados a ela. O banco procura emitir títulos mais atrativos do que os do governo. Se a Selic cai, o banco consegue captar recursos de forma mais barata e pode repassar isso ao consumidor.
O coordenador da pesquisa de juros da Anefac, o economista Miguel Oliveira, acrescenta que a queda da Selic não está sendo repassada ao consumidor porque a inadimplência cresceu acima do normal no primeiro semestre e os bancos estão mais cautelosos. Cada operação de crédito tem uma taxa diferenciada que depende do risco envolvido na operação, das garantias, prazos, forma de captação dos bancos e perfil do cliente. As taxas anuais do cartão de crédito atingiram 226,04% em agosto deste ano. Já as do CDC dos bancos chegaram a 47,47%.
A inadimplência subiu muito, explica Oliveira, por causa do crescimento do volume de crédito e por causa da bancarização, permitindo que pessoas nunca acostumadas a tomar empréstimos pudessem fazê-los. Mas a perspectiva é de queda da inadimplência. Oliveira é otimista na projeção da taxa de juros ao consumidor, não somente pela redução contínua da Selic como também pelo corte no spread. “A competição entre os bancos na captação de novos clientes tenderá a subir, o que reduz o spread”. Esse processo, porém, será mais lento e se tornará mais visível somente dentro de três anos. Nesse período, a Selic vai cair – o que será um estímulo para os bancos destinarem seus recursos à população em vez de voltá-los para o governo.
Oliveira acredita numa Selic de 13,5% ao final deste ano e de um dígito em 2007. Edson Carminatti aposta num percentual próximo de 12% ao final deste ano. Zeina Latif vislumbra uma taxa de 13,75% agora e de 12,5% para o final de 2007. Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, também acredita numa redução da Selic para 13,75%. Mas Agostini é mais cauteloso para 2007. “O próximo ano guarda uma incerteza com relação ao ambiente político. O governo poderá chegar enfraquecido no Congresso e pôr em risco a aprovação de algumas medidas”, pondera.
Fonte: Jornal do Commercio
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