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Inflação do dia a dia vai além dos dados oficiais
17 de março de 2013Leonardo Spinelli
lspinelli@jc.com.br
Planilhas e gráficos econômicos à parte, na feira o consumidor já sabe porque os alimentos estão mais caros. "Frutas e verduras são produtos influenciados por fatores como safra, água, preço dos combustíveis e mão de obra", diz o despachante aduaneiro Ricardo Lima, que divide com a esposa as compras de casa. "Há dois meses minha feira dava entre R$ 80 a R$ 90. Hoje gasto uns R$ 120. Embora a inflação oficial do País, o IPCA, tenha desacelerado de 0,86% para 0,60% entre janeiro e fevereiro passados, na ponta do lápis a realidade é bem diferente. Basta olhar os números do governo com mais atenção. Comida e bebida são os grandes responsáveis pela alta dos preços. E o pior: o Recife vem registrando os maiores índices de crescimento inflacionário.
No Mercado de Casa Amarela, os consumidores pagaram na semana passada até R$ 7 pelo quilo do inhame, R$ 4 pela cebola, cenoura e abacaxi e R$ 5 pelo tomate. Alguns dos produtos que mais encareceram, principalmente por conta da seca.
A pressão dos alimentos fez com que a presidente Dilma Roussef anunciasse a desoneração dos tributos federais sobre os itens da cesta básica. Se a inflação sair do controle e os juros voltarem a subir todo o País sofrerá. Consumidores, comerciantes, indústrias, serviços e o próprio projeto eleitoral do PT.
"Espero que a seca diminua e a redução de Dilma chegue até a gente", diz a bibliotecária Palmira Rebelo.
De acordo com o IPCA, nos últimos 12 meses, a farinha de mandioca aumentou em mais de 140%, o tomate quase 90%, a batata mais de 80% e cebola quase 50%. Esse movimento ligou o sinal de alerta no Planalto, que luta para manter o controle dos índices de inflação. Para tal, usa um instrumento que no jargão econômico chama-se medida anticíclica. São ações pontuais que tentam evitar que a economia seja contagiada por movimento específicos: alta dos preços, crises externas etc. Neste caso, o governo reduz impostos para segurar o dragão da inflação e permitir que o País tenha um crescimento econômico mais robusto que o pífio 0,9% de 2012.
Assim como fez em outros setores, o governo decidiu desonerar o setor alimentício e de limpeza na esperança de que o produtor repasse esse alívio para o consumidor. Fez o mesmo com o setor automobilístico e de eletrodomésticos. No caso da energia elétrica, que pesa muito na inflação como um todo, obrigou as geradoras estatais a vender a energia mais barata. Nos combustíveis, com a Petrobras sob seu comando, segurou o quanto pôde o preço da gasolina.
Para os economistas, a estratégia do governo é a de empurrar o problema com a barriga na tentativa de evitar ou postergar a elevação dos juros básicos da economia, a Selic, hoje em 7,25%, um remédio que esfria a economia.
Mas desonerar a cesta básica tem um efeito limitado.
"A decisão tem influência na inflação de curto prazo. Se você consegue suspender o aumento de preços por dois meses, é possível segurar a inflação no teto da meta (6,5%) de forma a não aumentar a taxa de juros", analisa o professor do Departamento de Economia da UFPE Alexandre Rands. "Políticas discricionárias, auxiliando um setor da economia em detrimento de outro, traz incertezas. O empresário não investe pois fica receoso de as atenções do governo se voltarem para o seu setor", comentou.
Para ele, a política de aumento do salário mínimo é um dos principais causadores da inflação. A pressão dos preços internos é o termômetro. Segundo o IPCA, o setor de serviços registrou aumento de 8,69% em 2012, índice bem acima da inflação geral. Para o professor de Finanças e Economia da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV) Samy Dana o governo vem abusando das soluções temporárias. "Desde 2008 o governo influencia o consumo e com isso conseguimos sair melhor da crise. Mas o remédio perdeu o efeito. A demanda desgastou e o endividamento das famílias está alto".
Fonte: Jornal do Commercio
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