SÃO PAULO -Pela primeira vez neste ano, o Banco Central (BC) fez ontem duas intervenções no mercado para tentar conter a alta do dólar, que, durante o dia, chegou a atingir R$ 2,16. Mesmo assim, a moeda norte-americana fechou no maior patamar em relação ao real desde 30 de abril de 2009, cotada a R$ 2,1480, com alta de 0,56%.
O real vem tendo uma expressiva desvalorização nas últimas semanas, pressionado tanto por fatores externos, principalmente os sinais de melhora da economia dos Estados Unidos, quanto internos, como o rebaixamento da perspectiva de nota de risco do Brasil feito pela agência de classificação Standard & Poor?s (S&P).
Apesar de um lado positivo, como facilitar as exportações brasileiras – os produtos nacionais ficariam mais baratos no mercado internacional -, há uma preocupação sobre os efeitos desse movimento na inflação, já que os produtos importados ficariam mais caros.
"O BC mostrou que não quer um dólar acima de R$ 2,15, porque nós temos um problema sério, que é a inflação", disse João Paulo de Gracia Corrêa, gerente de câmbio da Correparti Corretora. "Mas a desconfiança em relação ao País faz a alta do dólar persistir." Na semana passada, o governo reduziu de 6% para zero o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) dos investimentos estrangeiros em renda fixa, uma medida que, em teoria, aumentaria o fluxo de dólares para o Brasil, forçando uma queda nas cotações. Mas, até agora, isso ainda não foi visto.
"Potencialmente, a gente esperava que a redução do IOF gerasse um impacto maior (de entrada de dólares), porque você tem, aliado à isenção de imposto, a alta da Selic", disse Fernando Bergallo, gerente de câmbio da TOV Corretora.
A mudança da perspectiva da nota brasileira, de estável para negativa, foi justificada pela S&P, entre outras coisas, pelos baixos números de expansão da economia brasileira. Mas, segundo a diretora de ratings soberanos da S&P, Lisa Schineller, mais importante do que saber quanto o Brasil crescerá nos próximos anos será ver como ficará a credibilidade do governo perante o setor privado e como ocorrerá o equilíbrio entre crescimento e situação fiscal.
Segundo Lisa, a credibilidade do Brasil tem sido prejudicada por constantes mudanças de rota do governo. "A sinalização de políticas pelo governo tem ido para frente e para trás em algumas questões. Isso deixa menos espaço para o Brasil fazer manobras, mesmo durante no ciclo eleitoral, e pode minar tanto o crescimento do País como o lado fiscal." Ontem, a própria S&P elevou a perspectiva de rating dos EUA de negativa para estável, colocando mais pressão não apenas sobre o real, mas sobre todas as moedas, principalmente de países emergentes.
Fonte: Jornal do Commercio