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Depois da CPMF
23 de dezembro de 2007À alvissareira extinção da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), impropriamente apelidada de imposto do cheque porque, na verdade, incide sobre quase todos os débitos em contas-correntes ou de poupança, seguem-se as discussões sobre cortes de despesas nos três níveis de governo e nos três poderes, e especulações acerca da criação de um novo tributo em seu lugar.
O Impostômetro (http://www.deolhonoimposto.com.br/), painel instalado
O poder fiscalizador da CPMF não é tão grande quanto se diz. Embora o governo se valha das informações obtidas através dela, é preciso observar que só são revelados os valores que saem das contas-correntes ou de poupança, já que aplicações diretas em cadernetas de poupança, em ações ou em conta-investimento nada pagam até que sejam resgatadas, e o dinheiro efetivamente gasto. Assim, digamos que um corrupto ou mero sonegador deposite algum dinheiro diretamente nestas contas e deixe-o lá, rendendo, até aparecer uma oportunidade de lavá-lo: quem ficará sabendo? Há outras maneiras de sonegar a CPMF, como o endosso em branco de cheques, prática que possibilita a criação de verdadeiras câmaras de compensação particulares, onde empresas trocam cheques entre elas. Através do mercado acionário é fácil repassar valores a terceiros, por meio de dois expedientes simples: pode-se fazer uma transferência de ações entre duas ou mais pessoas, ou uma operação em bolsa onde o lucro decorrente da oscilação na cotação de uma ação ou opção qualquer fica com a parte que se quer beneficiar.
O ideal, para efeito de fiscalização e combate à sonegação e corrupção, é saber quanto entra nas contas-correntes, de poupança e de investimento. É o que basta, e não é necessário fazer isto via imposto, pois da mesma forma que a Receita Federal do Brasil (RFB) recebe das administradoras informações sobre a movimentação dos cartões de crédito, bancos e corretoras de valores podem e devem ser obrigados a dizer quanto entrou nas contas-correntes, de poupança e de investimentos, mensal ou semanalmente, pois o trabalho não é maior do que repassar os dados da CPMF.
Praticamente toda semana os órgãos policiais desmantelam esquemas de corrupção que funcionavam há anos, a despeito da vigência da CPMF. E foi através das informações prestadas pelas administradoras de cartões de crédito que a Secretaria da Fazenda de São Paulo autuou, em setembro, 93,6 mil lojas que omitiram vendas nessa modalidade – fora dinheiro, cartões de débito e cheques -, e uma só loja recebeu R$ 5 milhões, mas declarou só R$12 mil. Além desse expediente, a fazenda paulista dá 30% do valor do ICMS para quem pede cupom fiscal, pois raros são os estabelecimentos que o emitem espontaneamente. Se a CPMF fosse tão eficaz, isto seria desnecessário.
Os impostos, no Brasil, beiram os 35% do Produto Interno Bruto (PIB, que foi de 2,3 trilhões em 2006), e a sonegação é de cerca de 30% do PIB (Etco, André Franco Montoro Filho). Isso dá muito mais do que a CPMF, e está muito acima das autuações da RFB em 2006, de R$ 55 bilhões. Recuperar esse dinheiro não só permitiria ao País prover serviços públicos decentes como expulsaria do mercado a má concorrência. Obter informações que permitem detectar estes e outros crimes financeiros não depende de um tributo. Mais dinheiro e excelentes hospitais públicos teria o Pais se diminuísse a mania de grandeza das autoridades. A nova sede do Tribunal Superior Eleitoral custará R$ 328,5 milhões…
Fonte: Jornal do Commercio
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