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Economista alerta para risco de dominância fiscal
25 de outubro de 2021Furar o teto de gastos, como o governo parece sugerir ao dizer que pediria uma licença para adotar o programa Auxílio Brasil, traz perspectivas ruins que incluem juros mais altos, menos investimentos e menos crescimento no médio prazo, afirma Márcio Garcia, economista da PUC-Rio.
Na quarta-feira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, falou em licença para furar o teto, o que no dia seguinte levou às renúncias do secretário especial do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, do secretário do Tesouro Nacional, Jeferson Bittencourt, do secretário-adjunto do Tesouro Nacional, Rafael Araujo, e da secretária especial adjunta do Tesouro e Orçamento, Gildenora Dantas. As saídas, segundo Garcia, indicam que o teto foi “arrombado” e passam a pior mensagem possível para o mercado.
Os juros vão subir, o Banco Central terá mais trabalho, e a inflação vai piorar porque sob dominância fiscal o BC não controla inflação”, disse Garcia, em entrevista ao Valor. O economista afirma que o câmbio também subirá e lembra que o dólar chegou ao equivalente a R$ 7,50, corrigindo a inflação, em outubro de 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição. “Claro que a economia brasileira hoje é muito diferente, exporta mais, não é mais indexada ao dólar. Mas temos de lembrar que o dólar já chegou a R$ 7,50 em 2002. Então é uma possibilidade, ainda que pouco provável”, diz.
Garcia acrescenta que a bolsa e ativos brasileiros devem cair e a economia desacelerar ainda mais. “Teremos menos investimento e, certamente, estamos contratando menos crescimento, menos emprego e menos oportunidades para os brasileiros”, diz.
Para o economista, a manobra para furar o teto de gastos era previsível e “vai de acordo com populismo tradicional brasileiro, agora turbinado pelo desgoverno Bolsonaro”. “Está baixando desespero, eles têm de ganhar a eleição, e a saída é fazer do jeito que sempre fizemos”, diz. “Tem-se um governo cercado, e tradicionalmente a saída é sempre de mais gasto.
Garcia argumenta que o problema é também o horizonte. “Se disserem que daqui a um ano e meio entra um governo que pode colocar ordem nesse barraco, poderia segurar [o mau humor do mercado]. Mas a alternativa é o Lula, que está dizendo que vai entrar e gastar bastante”, diz. “E vai ter gente entrando no próximo governo [caso Lula seja eleito], como Nelson Barbosa, que está escrevendo artigo dizendo para acabar com o teto mesmo. Para onde vai esse país? O jogo está 5 a 1 e não está parecendo que vai virar. Se eu fosse investidor externo, eu pensaria em ir para outro lugar”, continua.
Para evitar furar o teto, ele defende, o Executivo e o Legislativo deveriam cortar gastos não prioritários para abrir espaço para gastos considerados prioritários, como o Auxílio Brasil é visto hoje.
“Então teria de cortar ‘bolsa empresário’, subsídios e renúncias fiscais. Temos uma tributação muito ruim e nossos gastos são muito grandes e regressivos, provendo benefício a quem menos precisa”, diz. “Isso precisa ser revisto. Mas rever isso envolve mexer com privilégios de gente grande. O próprio Paulo Guedes falava nisso. Mas, aparentemente, não conseguiu ou deixou de tentar.”
Para o economista, o impacto político de furar o teto para adotar o Auxílio Brasil pode ser extremamente negativo para o presidente Jair Bolsonaro quando tentar a reeleição em 2022.
deterioração da economia tende a ofuscar manobras “populistas”, prossegue.
“Duvido muito (que seja positivo para o Bolsonaro na eleição do ano que vem). O impacto sobre a economia vai ser bastante negativo. Já estamos com uma perspectiva de crescimento bem menor para o ano que vem, e isso vai piorar”, afirma. “Sobretudo se ficarmos nessa dicotomia entre um gastando o que não tem e o outro prometendo continuar gastando e gastando ainda mais. Nada pior do que o embate entre duas forças que se opõem em muitos aspectos, mas exercem uma política econômica nociva para o país.”
Fonte: Valor Econômico
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