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Mercado questiona o BC

20 de janeiro de 2016

BRASÍLIA – O mercado financeiro se sentiu traído pelo Banco Central (BC), depois da divulgação, ontem, véspera da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), de uma nota com comentários do presidente Alexandre Tombini a respeito de um relatório do Fundo Monetário Internacional. O FMI previu uma queda de 3,5% no PIB do País este ano. Tombini, por sua vez, disse que o BC levaria isso em conta na reunião do Copom que acaba hoje. Ou seja, sinalizou que os juros ou não vão subir ou terão uma alta menor que a esperada.

Para os economistas, a autoridade monetária vinha até então, por meio de seus documentos e discursos, direcionando as expectativas do mercado para uma elevação da taxa básica em 0,5 ponto percentual, ao ressaltar seu compromisso com a trajetória de controle da inflação para a meta central de 4,5% até 2017 e o objetivo de evitar que a inflação fechasse 2016 acima do teto de 6,5%, como ocorreu em 2015.

Mas a nota de ontem deixou a impressão de que o BC, pressionado por demais membros do governo para dar uma alta menor nos juros, ou nem aumentar, aproveitou o relatório do FMI, que não fez nada além de mostrar o que os números da atividade – e o próprio mercado – vêm atestando há meses, para corrigir a rota das expectativas. O saldo é um impacto fortíssimo na já abalada credibilidade do BC.

O governo trabalha com um alta de 0,25 ponto percentual na taxa. A presidente Dilma Rousseff conversou na segunda-feira, com Tombini, em reunião que não constou da agenda oficial. Segundo a nota emitida nesta manhã, Tombini avalia que as mudanças nas projeções do FMI para o PIB do Brasil foram "significativas". Ele também afirmou na nota que "todas as informações econômicas relevantes e disponíveis até a reunião do Copom são consideradas nas decisões do colegiado". De acordo com relatório publicado pelo FMI, a projeção de queda do PIB brasileiro em 2016 passou de 1% para 3,5%. Para 2017, saiu de uma alta de 2,3% para zero. Nesse contexto, o fato de o BC publicar nota desse tipo na véspera da decisão gerou revolta e indignação no mercado.

"Inacreditável o BC fazer isso de véspera. Absolutamente injustificável usar os dados do FMI para isso quando o mercado inteiro já está com o cenário consolidado muito ruim para este ano e o ano que vem", disse Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Dois ex-integrantes do Copom se disseram "perplexos" com a nota, para quem uma postura dessas não tem par na história do BC. "É contraditório com toda a linha apresentada desde o final do ano passado. Ou o BC não passou os recados certos ou teve de mudar de posição de última hora, o que é muito pior", avaliou um deles. "Todos os sinais do BC eram mais hawkishes (inclinado ao aperto), apesar da recessão. Não entendemos o motivo de Tombini passar um recado tão dovish (suave) no meio do caminho", disse outro ex-membro.

Na noite de ontem, o BC afirmou que não violou nenhuma regra escrita e que agiu de maneira inédita diante de um fato também inédito: a drástica revisão das projeções de crescimento do País feita pelo FMI.

Fonte: Jornal do Commercio

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