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Entre ressalvas e contestações

20 de janeiro de 2016

O relatório do Centro de Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), apresentado ontem, em Brasília, sobre o acidente aéreo que matou o ex-governador Eduardo Campos e mais seis pessoas em Santos (SP), em 2014, foi contestado ou considerado incompleto por familiares das vítimas. O documento aponta uma série de falhas dos pilotos Marcos Martins e Geraldo Magela que levaram à queda da aeronave. Dos parentes das vítimas, apenas a família Campos, em nota assinada pelo advogado José Henrique Wanderley, não contestou diretamente as conclusões da Aeronáutica – afirma precisar de mais tempo para "uma análise aprofundada do relatório" -, porém reclamou o fato de não ter sido feito um teste com simulador de voo durante as investigações.

Mas, momentos após o fim da exposição do relatório pelo Cenipa, o advogado Antônio Campos, irmão de Eduardo, emitiu uma nota apontando falha de projeto do Cessna como "versão mais plausível" para a tragédia. Ao JC, o advogado Josmeyr Oliveira, que representa os parentes dos dois pilotos, adiantou que cinco peritos brasileiros e americanos serão contratados para conduzir uma investigação alternativa que buscará confirmar se uma eventual falha no projeto do avião impediu o estabilizador horizontal da aeronave de funcionar corretamente, puxando-a para baixo. O relatório paralelo pode levar a uma ação contra a fabricante Cessna nos Estados Unidos.

O governador Paulo Câmara (PSB) disse concordar com a família na necessidade de aguardar a conclusão de todas as investigações. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal também apuram as causas do acidente. O PSB não se posicionou. Familiares de Carlos Percol, Alexandre Severo e Marcelo Lyra, que também estiveram em Brasília, preferiram não comentar o relatório do Cenipa.

O descumprimento do trajeto para pouso na base aérea de Santos, a desorientação espacial dos pilotos e a possível fadiga e sonolência dos condutores foram os principais fatores apontados pelo Cenipa como determinantes para o acidente. Ao chegar à base área de Santos, os pilotos não seguiram o roteiro em forma de oito que é exigido para pouso e tentaram fazer um atalho se aproximando direto rumo à pista. Na comunicação com os orientadores, os dois condutores informaram estar em uma localização em que o avião não estava, segundo a comprovação do radar.

Como a situação não era propícia para o pouso, o avião voltou a ganhar altitude. A arremetida, como o procedimento é chamado, é um dos elementos que pode ter contribuído para a desorientação espacial dos pilotos, quando ele não consegue saber se o avião está subindo ou avançando em direção ao solo.

O Cenipa fez uma extensa investigação sobre os pilotos. Mesmo experientes, eles não tinham treinamento específico para conduzir uma aeronave daquele modelo, o que teria contribuído para a tragédia. No jatinho, até o painel luminoso de emergência fica em um local diferente dos modelos para os quais a dupla havia treinado.

Outro elemento decisivo pode ter sido o cansaço, apesar da análise não ser conclusiva. Em agosto, mês do acidente, o ritmo da campanha fez com que os pilotos descumprissem por três vezes a legislação aeronáutica quanto à carga de trabalho e ao período mínimo de repouso. Antes do dia da tragédia, os condutores teriam tido tempo de descansar, mas uma análise da conversa com a torre de comando apontou sinais de fadiga e sonolência. De acordo com o Cenipa, não havia um contrato formal de trabalho firmado entre a campanha de Eduardo e os dois pilotos.

Novas imagens de câmeras de ruas próximas ao local da queda comprovaram que o avião não estava em posição invertida nem pegando fogo. A investigação também mostrou que os trens de pouso estavam recolhidos e os motores funcionando. A manutenção estava em dia, mas os gravadores de voz não funcionavam desde janeiro de 2013. Em cada viagem, eles devem ser testados.

Fonte: Jornal do Commercio

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