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Classe C freia consumo

22 de julho de 2014

A entrada de 40 milhões de pessoas na economia de consumo na última década foi o motor do crescimento do Brasil nos últimos anos. A classe C, no entanto, vem perdendo fôlego, sufocada pela inflação que corroeu o ganho extra conquistado e, além disso, os juros mais altos passaram a comprometer com maior força as prestações que antes pareciam caber no bolso. O clima de incerteza na economia também afeta a sua confiança em relação ao emprego. O resultado disso tudo é menos consumo.

Essas são algumas explicações encontradas pela Nielsen, empresa global de informações sobre o comportamento do consumidor, para explicar a redução de 2,5% na intenção de consumo no primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo a empresa, a atual conjuntura desfavorável ao investimento e ao consumo atingiu em cheio os sonhos da chamada nova classe média.

Segundo a Nielsen, a classe C é mais afetada em sua vida financeira, pois apresenta, em média, um gasto de 15% superior a sua renda mensal. "Embora a classe A/B seja quem mais contribuiu para o crescimento em 2014, a classe C ainda é o principal grupo consumidor", ressaltou Ilo Souza, analista de mercado da Nielsen. Em seu relatório de junho sobre a inflação, o Banco Central destaca que o consumo das famílias recuou 0,1% no primeiro trimestre de 2014 ante o trimestre anterior. Além disso, as vendas do comércio varejista haviam retraído 1,1% em março.

Esse quadro é a reverberação, na vida das pessoas, do atual cenário de estagnação econômica brasileira, com juros básicos a 11% ao ano e inflação na casa dos 6,5%. O País está preso na armadilha do crescimento baixo e com tendência de desaceleração. A previsão de crescimento da economia brasileira em 2014 recuou de 1,05% para 0,97% na pesquisa Focus do Banco Central, divulgada ontem, que traz a oitava revisão consecutiva do número para baixo. Foi a primeira vez em que esse número ficou abaixo de 1%.

Além dos problemas conjunturais de inflação alta, juros altos e crescimento pífio, estruturalmente a crise global mostrou as fraquezas do Brasil em produtividade, com a indústria perdendo participação no mercado global, devido a gargalos de infraestrutura e sistema tributário pesado. Além desses problemas urgentes, há outros se aproximando, como o envelhecimento da população, que forçará o aumento dos gastos com previdência.

Para o economista Paulo Picchetti, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o Brasil está parado num período de estagnação e vai continuar assim até, pelo menos, o mês das eleições. "Não dá para esperar que ninguém sinalize ou implemente isso (reformas) antes das eleições", considera. Na sua avaliação, a fórmula para melhorar a atividade econômica brasileira envolve decisões difíceis, mas inevitáveis. "Teremos de ter um período de ajuste, que envolve correção da taxa de câmbio e de preços administrados e aumento do superávit do governo para o financiamento da dívida pública. Não são soluções fáceis e geram custos para sociedade", afirma. A previsão dos especialistas é que 2015 será um ano ainda mais difícil, justamente por conta dos ajustes que devem ser feitos, como por exemplo, no caso do preço da gasolina, atualmente controlado para não repercutir ainda mais nos índices de inflação.

Apesar dos problemas, Picchetti avalia que termos como recessão ou estaginflação ainda são muito fortes para definir a situação atual. "Estaginflação está associada a taxas de crescimento zero e inflação superior a 10%. Ou seja, não é apropriado para a economia brasileira. Mas mesmo assim, estamos numa situação pouco confortável, pois temos uma inflação 6 vezes maior que a taxa de crescimento (prevista para a casa de 1% este ano)."

Fonte: Jornal do Commercio

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