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Prepare-se para o racionamento

6 de abril de 2014

E se houver um racionamento outra vez? Diante do baixíssimo nível dos reservatórios das hidroelétricas, o risco de desabastecimento tem crescido. Mas, desa vez, seria mais difícil atingir a meta de 2001, quando se exigiu que os consumidores reduzissem 20% do seu consumo? A realidade nos lares hoje é bem diferente de treze anos atrás, quando a simples troca de uma geladeira velha podia ser suficiente para alcançar a economia desejada. Apesar disso, ainda existe brecha para diminuir o consumo. Se não for pelo racionamento, que seja para se livrar dos pesados reajustes que estão por vir. Estima-se que a conta de luz deve subir 18% até 2015, devido ao custo para gerar a energia através das termoelétricas.

“A ineficiência dos aparelhos domésticos daquela época era muito maior. Hoje há menos gordura para cortar”, afirma Mikio Kawai Júnior, especialista em energia e diretor executivo do Grupo Safira (atua no ramo de soluções energéticas). As casas deixaram de ter freezers e as lâmpadas incandescentes, que gastavam até seis vezes mais energia que uma fluorescente, foram abolidas do mercado, lembra José Antônio Feijó, engenheiro do setor elétrico e integrante do Instituto Ilumina.

A família da consultora de saúde Lúcia Leão é um exemplo do quanto o brasileiro reduziu o consumo após o racionamento de 2001. A média mensal, para o uso de quatro pessoas, é de 400 kWh (quilowatt-hora). “Não é alto”, comenta Francisco Belo, engenheiro e especialista no uso eficiente da energia. Para alcançar a meta seria necessário reduzir 80 kWh na conta. Mas a família não usa chuveiro elétrico. Por semana, as roupas são lavadas na máquina três vezes e passadas, somente duas vezes. Há três ar condicionados do tipo split (um dos mais econômicos). “Mesmo com todos os aparelhos com selo A (o de maior eficiência), sempre há algo a fazer, porque consumo é hábito”, comenta Belo.

Logo ao chegar na residência da família, o consultor já sugere a primeira mudança: trocar as lâmpadas dicróicas pelos modelos led. “Elas não consomem tanto como as antigas incandescentes, mas uma led pode gastar até dez vezes menos”. São dez lâmpadas na sala e três na varanda, o que reduziria 16,5 kWh. Outra recomendação: não acender todas as luminárias sempre. Se a família reduzisse uma hora do consumo do ar-condicionado, nos três quartos, seriam menos 57 kWh. “Basta programar para desligar uma hora antes de acordar, porque o quarto ainda se mantém gelado”, comenta Belo. Lúcia Leão também vai lavar a roupa duas vezes por semana, incorporando mais uma economia de 6,4 kwh. Ao todo, as ações somariam menos 80,4 kwh na conta de luz. 

Cenário
Por que estamos novamente vivendo o risco de um novo racionamento? Não é apenas culpa de São Pedro. “O país vai viver sempre com essa ameaça enquanto a energia for tratada como uma mercadoria, não como um serviço essencial”, defende Feijó. O primeiro racionamento teve como causa o modelo elétrico criado no governo Fernando Henrique Cardoso. “Não havia planejamento. Se apostou que espontaneamente a iniciativa privada iria investir na geração por prever aumento de demanda e isso não aconteceu. O mercado não vai escolher qual é a melhor obra para o país. Só a que dá mais lucro”, comenta Feijó.

“Em 2004, o governo voltou a planejar o sistema e a fazer leilões de energia. Só que se não aparece investidor a obra não é construída. As estatais que passaram a viabilizar os projetos”, detalha ele. A lógica de gerar a energia pelo menor custo possível, sem considerar o longo prazo, é outra falha. “Poderiam ter combinado a energia térmica com a hidrelétrica para poupar a água dos reservatórios. Agora eles estão secos e as termelétricas estão acionadas por mais tempo, gerando um custo muito maior (quatro vezes acima da hidráulica)”, acrescenta Feijó.

O governo está colocando recursos do Tesouro Nacional para arcar com parte dessa conta, mas ela será dividida com o consumidor. Todo o parque térmico já está acionado. Sem a recuperação dos lagos das hidrelétricas, o racionamento parece inevitável. Seria mais barato para o país investir em bônus para quem diminua o consumo que arcar com 22,4% da geração de energia por térmicas. “Como se trata de um ano de eleição, irão segurar. Mas quanto mais cedo o país começasse a economizar, menor seria a meta de redução”, opina Kawai, da Safira Energia.

Fonte: Diario de Pernambuco

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