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Chegou a vez dos serviços públicos
12 de janeiro de 2014Os partidos políticos ainda não colocaram oficialmente a campanha nas ruas, mas as eleições deste ano já têm uma bandeira: a melhoria da qualidade dos serviços públicos. Seja para quem está no governo ou se postando como oposição, os discursos dos presidenciáveis e de postulantes ao governo do estado estão focados em propostas e promessas de aperfeiçoamento em áreas como saúde, educação e segurança pública. A tese dos partidos é a de que o país expandiu o acesso a estes serviços nas últimas décadas, mas precisa avançar na forma em que eles são oferecidos à população.
Este é um debate que foi impulsionado, sobretudo, pelos protestos que tomaram as ruas do país em junho do ano passado. Especialistas em análise de discurso e em gestão pública atribuem que esta mudança de raciocínio político é fruto da necessidade da implantação de uma “nova agenda”. O cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Lúcio Rennó alerta que a receita já foi utilizada, mas não teve eficácia.
“A oposição, na última eleição presidencial, focou muito na qualidade do serviço dos hospitais públicos. O que vinha sendo decisivo, até o momento, era o sucesso das políticas sociais (programas de distribuição de renda) e a gestão da economia. Esta pauta não é nova (qualidade dos serviços públicos), mas será um dos grandes temas este ano, em virtude dos questionamentos dos protestos do ano passado”, destacou o acadêmico.
O reflexo desta adequação política pôde ser sentida, por exemplo, nos últimos programas partidários e inserções (ver quadro) no rádio e na TV de legendas de oposição, como PSB e PSDB, além do próprio PT, que está à frente do governo federal há quase 12 anos. Todos os programas partidários, pós protestos de junho, tocaram na mesma tecla: inflação, perspectivas e críticas ao crescimento econômico, redução da pobreza e, claro, na melhoria da qualidade do serviço público, sobretudo transporte, saúde e educação.
Este discurso, em parte, é uma resposta direta às pesquisas de opinião realizadas recentemente de norte a sul do país. No mês passado, o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) revelou que 76% dos pernambucanos colocaram a saúde como serviço público prioritário para o futuro governador do estado. No Agreste, o índice chegou a 83%, onde os usuários se mostraram mais insatisfeitos. A educação também é uma das listas de prioridades, com 38%, seguida da segurança pública, com 22%, e a geração de empregos, com 15%.
“É bom assinalar que a pesquisa foi feita em cima da demanda versus o que já tinha sido feito na respectiva área. Antes, a área de segurança pública ficava no topo de qualquer levantamento em Pernambuco. Hoje, depois do investimento do estado na área, os índices caíram. No Sertão, por exemplo, 42% da população ainda coloca como prioridade o abastecimento d’água, enquanto no Grande Recife o índice fica em 1%”, destacou a diretora executiva do Ipespe, Marcela Montenegro. Foram ouvidas 1,5 mil pessoas entre os dias 26 e 29 de novembro.
Foco na gestão
O livre docente da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em marketing político Gaudêncio Torquato diz que, diferentemente da última eleição presidencial, o chamado “obrismo faraônico” ficará em segundo plano. “As grandes obras, como a Transposição do Rio São Francisco, as ferrovias Transnordestina e Norte e Sul, estão com o calendário atrasado e canteiros paralisados. O eleitor vai perguntar: eu tenho um carro e existem ônibus na cidade, mas eu não consigo circular. Como solucionar isso?”, alertou.
Para Gaudêncio, os candidatos ao Palácio do Planalto, como a presidente Dilma Rousseff (PT), o governador Eduardo Campos (PSB) e o senador Aécio Neves (PSDB) devem focar na capacidade de gestão. “Quem pode capitalizar este voto é o candidato com o discurso mais factível. Todos vão focar na capacidade de gestão de seus governos, mas é preciso dizer onde e como sairão os recursos das novas demandas”, completou, ao assinalar que o PT, possível alvo das críticas, já percebeu a tendência, investindo como “resposta”, depois dos protestos, no programa Mais Médicos.
Saiba mais
Conteúdo programático
Além dos discursos realizados em eventos e das entrevistas concedidas à imprensa, os pré-candidatos à Presidência da República abordaram a qualidade dos serviços públicos, principalmente de saúde e educação, nos programas partidários veiculados no ano passado. Confira alguns trechos:
PSB
Eduardo Campos
Programa exibido em outubro de 2013
“Por tudo o que a gente fez e viu acontecer nesse país, tenho a certeza, e acho que você também tem, de que não trilhamos o caminho errado. Mas temos que admitir que estamos no caminho que já deu o que tinha que dar. Tudo que foi feito até aqui teve seu tempo e sua necessidade, mas está na hora de darmos um salto adiante. É preciso combater a miséria, protegendo os mais vulneráveis, sim, mas é fundamental emancipar o cidadão, dar a ele os elementos para crescer, evoluir, para ser agente desse novo Brasil.”
PT
Dilma Rousseff
Programa exibido em outubro de 2013
“A história da dona Ivone é uma história comovente. Uma história como tantas outras de tantos outros brasileiros, que precisam de médicos, que precisam de médicos porque tem uma gana imensa de viver. Uma gana imensa de ficar aqui. Eu acho que a dona Ivone, como todo o brasileiro, merece uma saúde de qualidade. O que ela quer? Ela quer um médico que a atenda, que a trate bem e que torne a sua vida uma vida mais feliz, uma vida mais saudável. Por isso nós criamos o Mais Médicos. O Mais Médicos é a saúde de qualidade para todos os brasileiros.”
PSDB
Aécio Neves
Programa exibido em setembro de 2013
“Quando eu assumi o governo de Minas, eu falei, eu tenho uma prioridade: uma, acima de todas as outras, que é educação. O que a gente fez? A gente começou a estabelecer metas. Se aquela meta era alcançada, todo mundo que trabalhava naquela área, recebia um salário a mais. A secretária da escola, a professora, a diretora, a servente. Deu um salto na educação do estado e hoje a gente pode dizer que Minas tem a melhor educação do Brasil.”
Números
3.7 é o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do Ensino Médio do país
20,4 homicídios por 100 mil habitantes em todo o país em 2012
13 mortes a cada mil nascidos vivos no Brasil em 2012
30 minutos é o tempo médio que o brasileiro leva para chegar ao trabalho
R$ 10 bilhões ao ano é o custo dos engarrafamentos nos centros urbanos
Fontes: Inep, Mapa da Violência, ONU e Instituto Movimento São Paulo
Fonte: Diario de Pernambuco
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