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Ação para humanizar as ruas

8 de dezembro de 2013

Calçadas bem cuidadas e ruas arborizadas, onde seja possível transitar sem o incômodo do calor e sem olhar para baixo desviando dos buracos; em que carros não sejam a prioridade e ciclistas e pedestres possam andar sem medo. O inchaço automobilístico e as projeções desanimadoras para um futuro próximo com mais de um milhão de carros nas ruas abriram os olhos para considerar a possibilidade de essa descrição se adequar ao Recife. É cada vez maior o número de cidadãos que pensam e defendem a proposta de tornar a cidade mais humana. Ideia que começa a sair do papel em ações pontuais. Nos primeiros três meses do próximo ano, a Prefeitura do Recife pretende transformar as ruas das Calçadas, do Rangel e outras no entorno do Mercado de São José em vias exclusivas de pedestres.

Sairão as barracas verdes de frutas e comércio popular, os ambulantes e o espaço será daqueles que, na prática, já o ocupam: a população. “Andar aqui é muito difícil, a gente fica disputando espaço com os ambulantes nas calçadas e com os carros no meio da rua. Andar com criança e idoso é praticamente impossível”, exemplificou a cozinheira Cristiane Araújo, 35 anos. Ainda não existe um projeto executivo para a área, mas a ideia está formatada e será aplicada dentro da requalificação do Centro. “Iremos retirar qualquer comércio daquele entorno, mas iremos dar espaço para quem estiver cadastrado na prefeitura. Assim como iremos proibir o estacionamento e passagem de veículos. Queremos fazer um grande calçadão. A ideia é criar cada vez mais espaços humanizados no Centro, cujo padrão será dado pelo plano de circulação para a área que está sendo elaborado”, explicou o secretário de Mobilidade e Controle Urbano do Recife, João Braga.

Essas ruas se somariam a outras nove da cidade onde a passagem de veículos já não é permitida. Esse é um instrumento de melhoria das ruas, mas não confere a implantação do conceito de ruas humanizadas, colocado como fundamental para reverter o processo de esgotamento viário e hostilização das cidades brasileiras. É preciso atentar para a arborização das ruas, a qualificação das calçadas, retirada de espaços de estacionamento, de maneira a permitir o tráfego de carros, pedestres e ciclistas em segurança.

“Uma rua humanizada é onde o convívio é desejado pela comunidade. É trazer o espaço público de volta para as pessoas como é direito. A rua deixa de ser área de passagem e passa a ser de convivência”, descreve o cicloativista Daniel Valença. No Recife não existe uma rua 100% humanizada, mas pequenos fragmentos de que é possível fazer isso. Em Olinda, as ruas de Bairro Novo foram projetadas para a vizinhança, mas aos poucos os carros foram tomando a calçada, a violência fez os muros subirem, as pessoas ficarem dentro de casa e a falta de cuidado com os passeios minou a qualidade do caminhar. Em Boa Viagem, até a existência das ruas jardins foi questionada em “favor” da mobilidade. Nesse entorno, apesar do formato em zigue-zague, os carros se abarrotam em cima dos passeios públicos.

O arquiteto e urbanista César Barros, autor do livro Recife enxerido, que reúne propostas de humanização para a capital pernambucana, defende o conceito como vivável. “Quando há uma decisão política de mudar as ruas, acaba-se mudando toda a cara da cidade. Não interfere na vida da população, pois é uma minoria que usa o carro. Diminuir a quantidade de tráfego de veículos leva as pessoas a se adaptarem a chegar aos locais de um jeito diferente, melhora a qualidade de vida.”

Fonte: Diario de Pernambuco

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