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Lições de Barcelona para repensar o Recife
3 de novembro de 2013Pensar além dos muros é um desafio. E quando esses limites são obstáculos reais, o esforço é ainda maior. No século 19, um engenheiro catalão chamado Ildefos Cerdà revolucionou o urbanismo mundial ao pôr abaixo os muros medievais que cercavam Barcelona. Mostrou ao mundo, através de suas ideias modernas, lições de como uma cidade tem a capacidade de ser transformada para melhor, seja ela Barcelona ou Recife. De 5 de novembro a 4 de janeiro de 2014, o Museu da Cidade do Recife I, no Forte das Cinco Pontas, recebe a exposição Cerdà e a Barcelona do futuro – realidade versus projeto. Aulas, mesas-redondas e debates também estão previstos dentro da programação paralela. Para os organizadores do evento, o encontro pode funcionar como um aquecimento para a construção de um plano urbanístico de longa duração, que formule uma cidade para os próximos 25 anos, quando o Recife completa 500 anos.
Cerdà fez um plano considerado ousado para uma cidade que já não respirava bem na área de dentro da muralha. Eram casas coladas umas às outras e ruas estreitas. Do lado de fora, o solo rural de plantio e alguns núcleos povoados. Ao propor a construção de vias com vinte metros de largura, sendo cinco metros somente para cada calçada e 10 metros para a faixa de rolamento dos veículos, o engenheiro mostrou que a primeira pessoa em uma cidade é o pedestre. “Ele dizia, ainda, que a calçada devia ser como um cordão de árvores para que as pessoas usufruíssem desse espaço”, destaca Amélia Reynaldo, curadora local da exposição e conselheira do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU).
O engenheiro deixou claro, já naquela época, que estruturar o moderno não significa desrespeitar o passado. “Ainda hoje, a nova verticalidade erguida em Barcelona respeita o que já está instalado de infra-estrutura e não o contrário, como acontece em várias capitais”, analisa Amélia Reynaldo.
Cerdà foi mais longe ao pensar os térreos das habitações como espaços que deveriam ser ocupados com serviços, pois assim essas atividades estariam mais próximas dos pedestres. Para ele, as quadras, os espaços edificados, também precisavam ter equipamentos públicos religiosos, de saúde e educação, por exemplo. Não apenas isso, mas a infraestrutura oferecida também deveria ser de água, esgoto e gás. “São todas lições adequadas para os dias de hoje”, compara a conselheira.
Em meio às lições do engenheiro catalão, a curadora da exposição lamenta a ausência de planos urbanísticos recentes para a capital pernambucana. Segundo ela, o último deles é de 1943, que tem entre suas características a tentativa de remodelar a área central do Recife para possibilitar a chegada ao porto através de vias mais largas. “Nos anos 40 e 50 tivemos a instalação de uma grande quantidade de loteamentos, que não considero parte de um plano urbanístico. Mas acredito que o Recife é uma cidade com grande capacidade de transformação”, analisa.
entrevista >> Amelia Reynaldo
“O bairro de São José tem hora para morrer”
A senhora destaca que Cerdà propôs calçadas largas para os pedestres e vias mais estreitas para o carros. Hoje isso é possível de ser aplicado no Recife?
Sim. O desafio é a decisão de fazer. Uma pesquisa recente analisa o sistema de mobilidade de Barcelona e aponta que o maior número de viagens naquela cidade é feita a pé. Depois vem a bicicleta, o transporte público e, por último, o privado. Isso é possível porque os serviços, como a escola e a padaria, estão próximos das pessoas e a qualidade do transporte público é excelente.
Por que a comparação entre Recife e Barcelona?
Barcelona da época do plano de Cerdà era como imaginar o Recife do início do século passado. Havia o centro cercado com uma muralha, com o Recife Antigo, Santo Antônio, São José e um pedaço da Boa Vista; a área rural, com bairros como Casa Forte e Santana; além dos núcleos povoados, como a Várzea e Beberibe. Naquela época, a cidade de Barcelona não comportava mais a população, a insalubridade e as enfermidades. A discussão que surgia era em torno das novas demandas que a cidade passou a ter.
Quais lugares do Recife a senhora destaca como bons e maus exemplos de urbanização ao longo do tempo?
A nova orla de Brasília Teimosa é uma experiência positiva, pois deixou as pessoas de frente para o mar. O Recife Antigo, no entanto, teve uma decadência, foi retomado no final dos anos de 1980, e no fim dos anos de 1990 ele entra em decadência novamente. Fora a população do Pilar, só conheço uma pessoa que mora no bairro e é preciso habitação para tornar os lugares vivos. O São José, por outro lado, é um bairro vivo com hora para morrer, pois depois das 18h, com o fechamento das lojas, tudo se apaga, o lugar não tem mais vida. Por último, destaco a substituição das pedras portuguesas pelo piso intertravado da Avenida Boa Viagem como uma intervenção urbanística lamentável. Para se ter uma ideia, em Portugal, o calceteiro, que é a pessoa que faz a manutenção dessas pedras, é considerado patrimônio vivo. Na mesma orla, também destaco a pista para as bicicletas com uma imensa quantidade de quinas que chega a atrapalhar.
Fonte: Diario de Pernambuco
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