Os reservatórios do Recife precisam de água. Muita água. Mesmo com o início do período chuvoso, em abril, e após dois meses e meio de racionamento em 74 bairros, nove das dez barragens responsáveis pelo abastecimento da Região Metropolitana estão com menos de 50% da capacidade. A situação preocupa, como mostra o boletim de monitoramento, divulgado ontem pela Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac). Os percentuais, nada animadores, põem em dúvida o fim do racionamento na capital pernambucana, de início, tido como temporário e previsto para ser encerrado no fim deste mês.
"Não posso afirmar se o racionamento vai ser mantido ou eliminado, depende muito do volume de chuva nos próximos dias. Posso dizer que, pelo modelo matemático que usamos, com informações dos últimos 30 anos, Piparama deveria estar com 70%. Logo, estamos aquém do esperado", disse o diretor metropolitano da Compesa, Rômulo Aurélio.
Os dados da Apac deixam o cenário mais claro. No mês passado, choveu 223 milímetros no Recife, 20% abaixo da média histórica (275 mm) para o período. Este mês, a situação piorou. Até ontem, choveu 50 mm, 16% dos 320 mm que normalmente choveria.
Localizada no Cabo de Santo Agostinho, a barragem de Pirapama é a que mais preocupa. É responsável por abastecer 30% da Região Metropolitana e por gerar 5 mil litros de água por segundo. Ontem, seu nível chegou a 33,4%. Embora tenha praticamente duplicado, quando comparado há 45 dias, ainda está baixo. "Isso não nos dá segurança para acabar com o racionamento. Mas estamos num período de chuvas, temos de ser otimistas, muita coisa pode acontecer", completou Rômulo Aurélio.
Sérgio Torres, diretor da Apac, conta que a situação do Recife exige atenção, mas lembra que a previsão para os próximos meses é de precipitações próximas às médias históricas. Para ele, o Sertão é o maior problema. "Ano passado choveu 25% da média histórica no Sertão. Este ano, 40%. O quadro não é animador", revela.
De 18 grandes barragens em situação de colapso de Pernambuco, isto é, com níveis de água inferior a 10%, 16 estão no Sertão. "O período chuvoso já terminou naquela região, agora só em janeiro do ano que vem. Mas a situação pior nem é a dos grandes reservatórios, é sim a das barragens de pequeno porte, que sustentam a população humilde. Estas estão 90% secas", alerta Clênio Filho, gerente de monitoramento da Agência Pernambucana de Águas e Clima.
Desde 1º de março, devido ao baixo nível dos reservatórios do Grande Recife, a Compesa dividiu a cidade em dois setores para organizar a liberação de água. Com 36 bairros (Aflitos, Boa Viagem, Boa Vista, Campo Grande, Ponto de Parada entre outros), o setor 1 é abastecido nos dias ímpares. O setor 2, composto por 38 bairros (Afogados, Areias, Cidade Universitária, Casa Amarela, Torrões e outros), fica sem água nos dias pares.
No total, dos 94 bairros recifenses, 74 estão incluídos no racionamento deste ano, que pegou de surpresa, principalmente, a população da parte plana da capital, acostumada a ter água nas torneiras todos os dias desde 2010, após a inauguração do Sistema Pirapama.
Fonte: Jornal do Commercio