A dona de casa Edy Iraci Neves mudou a receita do molho. Deixou de usar o tomate fresco, que dava um sabor mais autêntico ao prato, e passou a utilizar o produto industrializado. Culpa do preço nas alturas. Em um ano, por exemplo, o quilo do tomate extra, tipo mais comum, ficou 200% mais caro no Grande Recife. Saltou de R$ 1,20 em março de 2012, para R$ 3,60 o quilo ontem, segundo cotação da Ceasa-PE. Nos supermercados e quitandas, o preço, ontem, girava em torno de R$ 4,50, mas chegou há alguns dias a cravar impensáveis R$ 10 o quilo em alguns locais. Oficialmente, no País, a alta medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi de 89,4% nos 12 meses encerrados em fevereiro. Já o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), aponta 99,48% de variação anual para o tomate na capital pernambucana.
Sempre volátil, o preço do tomate sobe desde o primeiro semestre do ano passado e agora oscila em um patamar muito mais elevado que o normal (veja detalhes na arte ao lado). O movimento de valorização começou por iniciativa dos próprios produtores. No começo de 2012, o valor pago pelo produto estava muito baixo, mal cobria os custos com plantio e colheita. A decisão então foi reduzir a área plantada. Com isso, a oferta caiu 16% no País e, com a demanda estável, os preços aumentaram.
Eis que aconteceu o inesperado. Em um cenário de produção intencionalmente encolhida, as regiões produtoras do Centro-Oeste, Sul e Sudeste, foram castigadas com muita chuva no segundo semestre e a queda se acentuou além da conta. No Nordeste, especialmente na Bahia e em Pernambuco (oitavo maior produtor do Brasil) a seca foi o motivo para o revés no cultivo. No Estado, os principais municípios produtores estão no Agreste e Sertão, onde a estiagem é mais severa.
"Se compararmos os três primeiros meses de 2013 com o mesmo período de 2012, a oferta na Ceasa-PE caiu 15,59%, de 12,7 mil toneladas para 10,80 mil toneladas. Há ainda um maior custo de produção, especialmente com o encarecimento da mão de obra. E agora em abril começa a entressafra em Pernambuco e na Bahia, que segue até julho. Vamos experimentar maior dificuldade para encontrar tomate, precisando comprá-lo do Centro-Sul, com o frete mais caro por conta do reajuste do diesel", resumiu o diretor técnico-operacional da Ceasa-PE, Paulo de Tarso Dornelas de Andrade.
A supervisora técnica do Dieese, Jaqueline Natal, comentou que o tomate é "o vilão da vez" na cesta básica, assim como foi o feijão em anos anteriores. "O problema é que o tomate é um produto muito influente na mesa dos brasileiros e difícil de ser substituído, especialmente na salada. E ainda por cima é muito perecível", resumiu. "Não há um grande fornecedor de tomate, e sim milhares, de pequeno e médio portes. Podem ofertar uma boa quantidade hoje e amanhã não", acrescentou o presidente da Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores (Aspa), Douglas Cintra.
O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, seccional Pernambuco (Abrasel-PE), Núncio Natrielli, também proprietário do Michelli, restaurante de culinária italiana, reclama que não escuta uma "explicação razoável" para tamanho encarecimento. O consumo de seu estabelecimento, de médio porte, é de duas toneladas de tomate por mês. "Já existem restaurantes que estão mudando receitas, trocando molho de tomate por molho branco. "Mexer nos preços do cardápio é complicado, nós, por enquanto, estamos segurando", contou.
Fonte: Jornal do Commercio