O sonho da estabilidade no emprego com melhores salários. Cada vez mais o brasileiro deixa a iniciativa privada para seguir carreira no serviço público. Pesquisa da FGV Direito Rio com a Universidade Federal Fluminense (UFF) revela que os concurseiros estão em alta. Entre 2007 e 2011, o número de candidatos aos concursos na esfera federal pulou de 2 milhões para 4 milhões. Um mercado que movimentará neste ano cerca de R$ 50 bilhões na economia do país. A corrida aos concursos impacta no mercado de trabalho porque provoca a fuga de profissionais qualificados para a área pública.
São engenheiros, advogados e adminsitradores que deixam o emprego para se dedicar ao concurso público. “Podemos inferir que a opção pelos concursos é motivada pelos altos salários e benefícios. Ainda que o mercado pague mais, existe a promessa que não pode ser demitido no serviço público”, diz o professor da FGV Direito Rio, Fernando Fontainha, coordenador da pesquisa “Brasil: o país dos concursos?”. Em sua avaliação, esse conjunto de vantagens com a promessa de maiores salários no setor público desagrega a economia no setor privado.
A maior atratividade é a área jurídica porque paga os maiores salários. A remuneração média inicial é 173,27% superior em relação ao menor salário no setor público. Em 10 anos, o salário do procurador federal aumentou 250%, enquanto do técnico do CNPq cresceu 150%. O professor de matemática Allan Galindo Jacques Manguinho, 31 anos, decidiu estudar para concurso público. “O que mais me atrai é a estabilidade e o bom salário. Meu sonho era ensinar, mas a profissão não é valorizada”, desabafa. Ele se prepara para disputar uma vaga nos tribunais federais. Menos um professor em sala de aula.
A bióloga Alcione Gomes da Cunha de Almeida, 32 anos, deixou a iniciativa privada para se dedicar aos concursos públicos. Ela foca as carreiras jurídicas . “Se fala que o mercado de trabalho está aquecido, mas quando vem a crise, a primeira coisa que a empresa faz é se desfazer das pessoas”.
Para a diretora jurídica da Associação Nacional de Proteção aos Concursos (Anpac), Maria Thereza Sombra de Albuquerque, o atrativo dos concursos públicos é a estabilidade no emprego, mas o concurseiro busca o status social e a ascensão financeira para ele e para a sua família. “Antes tinha aquele funcionário público que pendurava o paletó e não trabalhava. Hoje, o serviço público se transformou num grupo de profissionais de primeira qualidade”.
Visão diferente do professor Fernando Fontainha, da FGV Direito. Para ele, o atual formato de seleção no setor público é deficiente porque não valoriza a qualificação. O estudo mostra que os profissionais mais bem remunerados são aqueles que concluíram a graduação, cujo salário médio é de R$ 5.028,61.
Concursos públicos federais (2001 a 2010)
Áreas Vagas Salários
Serviço social 372 R$ 4.420,44
Química 417 R$ 4.819,18
Medicina 527 R$ 3.558,46
Jornalismo 381 R$ 4.243,01
Informática 577 R$ 4.680,02
Física 740 R$ 4.819,18
Estatística 458 R$ 3.373,97
Engenharia 21.109 R$ 5.143,56
Economia 4.403 R$ 3.355,31
Direito 1.924 R$ 7.160,77
Contabilidade 853 R$ 3.724,45
Biologia 279 R$ 5.226,22
Biblioteconomia 223 R$ 2.890,81
Arquivologia 893 R$ 2.620,35
Arquitetura 169 R$ 3.419,83
Administração 302 R$ 5.820,78
Candidatos no Brasil
2007 2 milhões
2008 3 milhões
2009 5 milhões
2010 6 milhões
2011 4 milhões
Titulação/Salário médio
Doutorado R$ 4.182,81
Mestrado R$ 2.211,53
Graduação R$ 5.028,61
Ensino médio R$ 2.157,53
Fonte – FGV Direito Rio
Fonte: Jornal do Commercio