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Agência cobra esforço fiscal

25 de maio de 2008


No último dia 30, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) promoveu o Brasil a investment grade, um selo que atesta que o Brasil é um bom pagador e porto seguro para investidores. A notícia causou surpresa, pois chegou em meio à crise americana e sua repercussão mundial, e reforçou o otimismo e a imagem no exterior da economia brasileira. Em entrevista ao repórter Giovanni Sandes, a diretora de rating soberano da S&P, Lisa Schineller, em companhia da presidente da Standard & Poor’s no Brasil, Regina Nunes – que respondeu uma das perguntas –, afirmou que a S&P prevê inflação de 5% no Brasil este ano, comentou sobre corrupção, a saída da ex-ministra Marina da Silva (Meio Ambiente), as dificuldades do governo em promover reformas e a previsão de déficit de US$ 20 bilhões na conta corrente brasileira para 2008 – em 2007, houve superávit de US$ 3,6 bilhões (queda de 73,5% ante 2006). Lisa ainda destacou o que o Brasil tem que fazer para manter o grau de investimento e melhorar ainda mais sua classificação.

JORNAL DO COMMERCIO – O que muda com a nova classificação de risco do Brasil?

LISA SCHINELLER – É um passo na escala de rating. Mas um passo muito importante. Em geral, a categoria BBB, que começa com BBB-, que é a nota atual do Brasil, significa um nível de risco menor em comparação com o grau especulativo. Existe uma base maior de fundos que podem investir (não significa que vão investir) nos títulos do governo. Eles têm suas próprias regras e, muitas vezes, têm limites sobre papéis que não têm grau de investimento. Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, existem fundos que podem investir agora no Brasil e que não poderiam no passado. Isso tem implicações, sem dúvida, para a liquidez, a demanda pelos papéis do governo. Tudo isso, ao longo do tempo, não necessariamente agora, tem reflexo no custo do financiamento do governo. Em geral, esta é uma implicação, ao longo do tempo: menos custos para financiamento para todos.

JC – Alguns especialistas afirmam que os países que receberam o grau de investimento tiveram fortalecimento da moeda nacional por até dois anos antes e depois da nova nota. Esse é um movimento que ocorre de fato?

LISA – Não fizemos um estudo sobre o que acontece antes e depois com o câmbio. No caso do Brasil, por que a taxa de câmbio está mais forte com relação aos últimos anos? Por várias razões. Uma muito importante é que a dívida externa é menor. Dívida do governo menor, nível de crescimento maior. Então, existem razões muito boas para o câmbio do Brasil ser mais forte. Segunda razão: o nível de commodities. O Brasil tem commodities muito importantes para o mundo, esses preços estão muito fortes agora e por isso o câmbio é mais forte. A terceira é que o dólar americano está muito fraco por causa de sua situação mesmo. As três coisas têm reflexo na moeda do Brasil. Mas, para este ano, esperamos uma leve depreciação do real. Temos uma projeção de déficit para conta corrente de mais ou menos US$ 20 bilhões, em comparação com um superávit leve em 2007 e um superávit ainda maior em 2006. E também o superávit da balança comercial vai cair para pouco mais da metade de 2007, que foi de US$ 40 bilhões.

JC – Dentro dessas projeções, qual a expectativa para a inflação deste ano?

LISA – O desempenho da inflação é maior. Temos uma projeção de mais ou menos 5% para este ano. É um incremento em comparação com o final de 2007 e de 2006. E uma das razões para o upgrade reflete nossa avaliação sobre o pragmatismo das instituições do Brasil, que inclui a independência operacional do Banco Central – seu compromisso de manter um baixo índice de inflação é muito importante. O BC está ativo, sem dúvida, agora.

JC – Outra agência de classificação de risco, a Moody’s, manteve a classificação de risco do Brasil e justificou a sua decisão com base no nível da dívida do País e na falta de reformas. São ainda entraves da economia brasileira?

LISA – Sem dúvida, o ponto mais fraco dentro do rating é a situação fiscal. A relação dívida x PIB é grande em relação a outros países com grau de investimento. Por nosso cálculo, 47% do PIB. Isso em comparação a 20%, em média, dos outros países da categoria BBB. Mas porque podemos ter grau de investimento? Porque, primeiro, na nossa avaliação, essa relação dívida x PIB pode e vai ser um pouquinho menor ao longo do tempo. Essa diminuição é suportada por uma política pragmática, um compromisso de reduzir a dívida x PIB pouco a pouco. E por uma melhora no perfil da sua dívida, mais parecido agora com outros países em grau de investimento – são mais de 90% no mercado local, em moeda local – e a melhora no perfil da moeda, no mercado interno. Essa política de quase dez anos que tem frutos agora, com melhora na perspectiva para um nível de crescimento sustentável de 4%, 4,5% ao ano, também dá um suporte importante para o pagamento da dívida.

JC – O grau de investimento se ganha e se perde. Para manter…

LISA – (interrompendo) Sim, se ganha e se perde. Mas, antes de tocar nesse tema, as reformas podem ajudar em mais uma melhora no rating, no ritmo de crescimento sustentável do País. Um processo mais profundo de reforma vai ser importante, reforma nas contas fiscais para menos inflexibilidade, a reforma tributária, que pode melhorar a eficiência e o clima de investimento do País. Temos muitas coisas que podem acontecer para uma melhora no ritmo de crescimento sustentável. E também uma queda do nível dívida x PIB mais forte vai ter um impacto positivo também para abrir mais espaço a investimentos privados. Para mais uma melhora no rating, (é preciso) mais esforço fiscal. Para manter o rating, sem dúvida, a política fiscal é a chave. Nos países que ganharam e perderam o grau de investimento, o tema fiscal foi predominante.

JC – Quais foram os países que receberam e perderam o grau de investimento?

LISA – Na região, teve a Colômbia e o Uruguai. Fora dela, a Índia foi outro exemplo. No Uruguai e na Colômbia, o motivo foi a situação fiscal. A Índia perdeu mas, entre seis e dez anos, teve grau especulativo e agora novamente tem grau de investimento.

JC – Quais os setores que podem sentir primeiro o grau de investimento, no Brasil?

LISA – Acho que o investimento estrangeiro direto que se olha agora no País é muito diversificado: na área agroindustrial, infra-estrutura, mercado de consumo. Do nosso ponto de vista, a melhora na perspectiva de crescimento sustentável reflete estabilidade. E o que está acontecendo? Nos pontos fortes do Brasil no mundo, o potencial da agroindústria, do etanol, a necessidade de infra-estrutura para apoiar o desenvolvimento nessa área atrai interesse estrangeiro. Mas também essa formalização da economia com o crescimento do mercado interno é muito importante. Por isso, também, o mercado interno, com o incremento dos níveis de renda das classes mais baixas é muito importante e também está atraindo investimentos lá fora.

JC – Falando em etanol, o governo federal tinha a figura da ex-ministra Marina da Silva (Meio Ambiente) como uma espécie de selo verde internacional. Seja com a saída dela, seja por escândalos de corrupção, como o quadro político brasileiro afeta a imagem do País e a confiança que o investidor tem no País?

LISA – Acho que o tema corrupção é realidade em muitos países. Olhamos os rankings de transparência internacionais para entender se o país tem competitividade no exterior. Esse conjunto tem impacto sobre o clima de investimento. Mas, no final do dia para o rating, esse tema pode ter impacto se influencia determinada política, se um tema de corrupção impede a habilidade do governo de manter uma política pragmática. Em um País com um nível de rating muito maior, se para melhorar uma situação é preciso fazer uma reforma na área de energia, por exemplo, e ele não consegue atingir esse tipo de reforma por um conjunto de coisas, isso pode ter um impacto sobre seu rating. Tudo depende. No final do dia, o que é importante para nós é a perspectiva de manter uma política pragmática, e no caso da saída da ministra Marina o governo vai continuar com sua política de meio ambiente. Ponto. E clareza nas regras, o que é muito importante para o investidor e para nós também.

JC – As políticas do Brasil vêm atendendo a esses requisitos de clareza?

LISA – O passo para o grau de investimento é muito importante. Reflete anos de trabalho. Não só um ano, não só um partido, não só um político. Reflete um marco macro do País, do que começou nos anos 90 e sua manutenção dentro das mudanças do governo, partido por partido. Esse é um ponto muito importante na nossa avaliação do Brasil, que demonstra diferença ante outros países da região. Esse compromisso de há mais de dez anos tem impacto na nossa avaliação. Sim, a dívida x PIB está grande, mas é suportada por uma política pragmática. Esse compromisso é importante para suportar e manter o grau de investimento.

JC – Foi uma vitória das políticas ortodoxas dos governos?

REGINA NUNES – (Foi o resultado) de muito sacrifício do governo, da sociedade. Você tem uma vitória da sociedade, do Congresso e do governo, porque todos estão alinhados em fazer o certo do jeito certo. Tem que diminuir suas dívidas, pagá-las corretamente. A parte de dívida é a mais importante de ser reduzida para que o governo possa, e o Brasil inteiro, ter flexibilidade nas suas opções. Quanto mais você fizer esforço fiscal, melhor. É mais ou menos o seguinte: taxa de juros e câmbio são conseqüências e não razões. Então, sempre vão refletir a sua fraqueza, a sua estrutura. Por mais que você tenha chegado ao grau de investimento, você ainda tem uma taxa de juros elevada para o Brasil. E isso reflete o quê? Gastos públicos, tendência inflacionária, o quanto você tem de arrecadação que está inflexível. Hoje, você tem uma parte da arrecadação do Brasil que é rígida, não dá opções, uma série de coisas. Para ficar onde está, é fazer mais do mesmo. Para você melhorar, é claro que reformas são bem-vindas. Você tem que ter o quê? Olhar uma reforma tributária com simplificação, com redução de burocracia, com o custo-Brasil diminuindo, uma reforma trabalhista. E aí, a sociedade é que tem que fazer força para que os seus representantes, numa democracia, reflitam a sua vontade. Acho que foi uma vitória dos três poderes. A sociedade quer que todo mundo faça o que a gente faz em casa.

Fonte: Jornal do Commercio

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