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Salário em dia vira fato inusitado

28 de outubro de 2007

Todo estudante de jornalismo já escutou, pelo menos uma vez, a velha história sobre um conselho de um editor-chefe de um jornal norte-americano a um jovem repórter: “se um cachorro morder a perna de um homem não é notícia, mas se um homem morder a perna de um cachorro, isso é notícia.” A máxima é atribuída a Amus Cummings, ex-editor-chefe do New York Sun, jornal que inaugurou o jornalismo popular nos Estados Unidos. A afirmativa segue o princípio de que morder faz parte da natureza do cachorro, e portanto ele morder a perna de um homem é completamente normal. Já o homem morder a perna do cachorro soa absurdo, ou no mínimo é inusitado, e portanto desperta o interesse.

As contas do governo do Estado, ao longo dos tempos, parece ter subvertido essa lógica, frequentando as páginas dos jornais. O economista Jorge Jatobá, secretário da Fazenda de Pernambuco entre 1999 e 2002, se revelou surpreso com a repercussão que teve o anúncio do pagamento dos servidores na imprensa. De fato, o pagamento de salários em dia não deveria ser notícia, porque é isso que se espera que aconteça. Na última sexta-feira, o governo do Estado divulgou o calendário de pagamentos do primeiro semestre de 2008 e a antecipação do 13º salário. Mais uma vez, a notícia ganhou destaque.

O pagamento em dia dos salários do funcionalismo público virou um fato inusitado após a implantação do Plano Real, que fez com que os governos perdessem (uns em maior intensidade que outros) uma fonte importante de financiamento: a inflação. De lá para cá, foram várias as formas de financiamento. Principalmente para o pagamento do 13º salário. Antecipação de receitas orçamentárias, antecipação de recolhimento de ICMS, operações de crédito e alienação de ativos. Gradativamente, o Estado aprendeu a conviver sem inflação, conseguindo realizar o provisionamento financeiro para pagar o abono de fim de ano com recursos próprios do Tesouro.

Desta vez parece ter chegado a hora de entrar numa nova fase, com a programação de longo prazo e o pagamento dos salários até o fim do mês corrente – uma antiga reivindicação dos sindicatos dos servidores públicos. Agora, é torcer para que o pagamento em dia ao funcionalismo público deixe, de uma vez por todas, de ser encarado como algo inusitado. Assim, deixará também de ser notícia e de alimentar discussões sobre as heranças malditas desse ou daquele outro governo.

Fonte: Jornal do Commercio

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